Ttulo: Retrato de um Amor.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Livros Abril, So Paulo, 1984.
Ttulo Original: A Portrait of Love.
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Edith Suli.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente 
leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de
direitos de autor, este ficheiro no pode ser distribudo para outros
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Barbara Cartland
Retrato de um amor
Leitura - a maneira mais econmica de cultura, lazer e diverso.
LIVROS ABRIL
Romances com Corao
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Retrato de um amor
Sentada junto  janela, Dora virava automaticamente as pginas de um
livro. Quantas mudanas aconteceram em sua vida desde que chegara ao
castelo de Kimball.  O conde de Haversham Amava-a  e seu amor era
correspondido... Ah, como sentira a fora desse amor nos braos, nos
beijos de Kimball. Mas ento por que o Conde dizia que a unio deles era
impossvel? Perdida em suas divagaes, Dora no percebeu que uma
estranha figura havia entrado no quarto. O vulto, vestindo uma longa
camisola e com os cabelos em desalinho, no fizera nenhum rudo.
Apavorada, Dora ainda se perguntava se estava diante de um fantasma,
quando a mulher comeou a falar, aproximando-se ameaadoramente: "No vou
deixar voc tir-lo de mim! Nunca! Ele me pertence! "

Livros Abril.
Retrato de um amor
Ttulo original: "A Portrait of Love"
Copyright: (c) CartJand Promotions 1982
Traduo: Slvia Macedo
CoPyright para a lngua portuguesa: 1984 Abril S. A. Cultural - So Paulo

Esta obra foi composta na Linoart Lida. e impressa na Editora Parma Ltda

CAPITULO I
1841

Dora Colwyn limpava a sala de estar, quando Jim chegou. Era um homem
pequeno, de cabelos grisalhos e tinha os olhos mais honestos e submissos
do mundo.
- No consegui nada, senhorita - anunciou ele. - O merceeiro
disse que s tornar a fornecer-nos mantimentos, quando tivermos
dinheiro para pagar.
Dora suspirou. J esperava por isso, pois h muito tempo no tinham com o
que pagar o homem.
- Teremos que vender alguma coisa - murmurou ela, mais para
si mesma do que para Jim.
- Eu poderia levar um dos quadros para Londres, senhorita sugeriu Jim.
- No temos o direito de vend-los! - replicou Dora. - Os  quadros so
de Philip. O que diria ele se voltasse para casa e no os encontrasse
mais?
- Acho que sua sade e a de seu pai so muito mais importantes do que os
quadros - argumentou o criado, com muita lgica.
Dora suspirou. No queria nem pensar em vender os quadros, enquanto seu
irmo estivesse no Oriente, tentando fazer fortuna. Alm disso, separar-
se daquela rica coleo, formada ao longo dos anos por seus antepassados,
seria como trair seu prprio sangue!
Era difcil entender como seu pai conseguira preservar intacta a coleo
da famlia e mesmo aquele velho palacete, onde moravam, que passaram de
pai para filho, desde os tempos da rainha Elizabeth I.
O pai de Dora herdara a coleo, o palacete e uma poro de dvidas, que se iam avolumando mais e mais, com o passar dos anos. Ele, entretanto, tinha muito orgulho
daquela propriedade, de nome Mountsorrel, e continuaria vivendo ali, ainda que o palacete casse em runas.
Dora e o pai ocupavam agora apenas alguns aposentos da antiga construo. O resto da casa tornara-se inabitvel: o forro estava caindo, e o assoalho apodrecido permitia
a entrada de ratos, as janelas quebradas deixavam a chuva entrar e os furos no telhado tornavam-se maiores, a cada ano que passava.
E no era s isso. Mesmo os aposentos ocupados estavam num estado lastimvel. Os tapetes e as cortinas mais pareciam trapos e a maioria das poltronas estava quebrada
ou precisando de urgentes reparos. S os quadros da coleo mantinham intocado o esplendor dos velhos tempos. Um dia Philip os herdaria e, depois, passariam para
seus filhos, seus netos...
Olhando para as paredes, Dora chegou mais uma vez  concluso de que qualquer museu gostaria de possuir uma daquelas obras de arte...
Havia um Holbein, cujas cores riqussimas combinavam perfeitamente com as de um Hogarth que ficava ao lado.
Sabendo que, na verdade, nunca conseguiria separar-se daquelas telas, Dora olhou para o belo Fragonard de que seu pai tanto gostava e que tantas vezes ficava a apreciar
longamente.
A jovem continuou admirando a coleo e seus olhos pararam numa tela de Raeburn. Que belo modelo! Como tinha carter aquele quadro!
- Um grande artista! - dissera seu pai, na semana anterior.
- Pintava direto sobre a tela, sem fazer esboo!
Dora ficou ainda mais enternecida, ao parar diante de um quadro de Van Dyck, que retratava um antepassado de sua famlia, tendo ao fundo o palacete Mountsorrel.
. .
- No podemos mexer nos quadros desta sala - disse Dora a Jim, que a acompanhava.
- H uma pilha enorme de quadros na outra sala - lembrou o criado.
- Mas papai est restaurando-os - explicou Dora, com um suspiro. - Logo sentiria falta, se vendssemos um deles.
Qualquer estranho sentir-se-ia chocado, ao ver o contraste entre o estado deplorvel das paredes e mveis e o brilho intenso de cada um dos quadros da coleo.
Alexander Colwyn, pai de Dora, ainda muito jovem resolvera aprender a restaurar obras de arte. Sentia-se na obrigao de cuidar dos quadros da famlia que, com o
passar do tempo, comeavam a escurecer.
Ao saber que em Londres vivia um grande restaurador, o jovem Colwyn escrevera-lhe, pedindo para ser admitido como seu aprendiz. Tendo seu pedido aceito, para l
partira, a fim de conhecer todos os segredos da arte de restaurar.
Ao voltar para casa, Alexander pusera-se a restaurar cada um dos quadros da coleo, at que todos voltassem  sua condio original.
O que comeara como necessidade tornara-se fonte de enorme prazer para ele. com o tempo, sua fama de bom restaurador difundiu-se, e vrios amigos passaram a solicitar
os servios de Alexander, na restaurao de quadros de suas prprias colees.
Agora, Alexander Colwyn achava-se doente, e sua sade debilitada obrigou-o a cessar suas atividades.
- Se aquelas pessoas tivessem pago ao menos pelo material que papai empregava nas restauraes, no estaramos passando por tantas dificuldades - pensava Dora.
A jovem, mortificada por no poder cuidar convenientemente de seu pai, chegara mesmo a considerar a possibilidade de conversar com aqueles amigos, a fim de pedir-lhes
que pagassem pelos servios que seu pai realizara. O velho Colwyn, entretanto, jamais o permitiria, pelo simples fato de considerar essa atitude absolutamente humilhante.
A situao, no entanto, chegara a um ponto tal, que se no conseguisse uma forma de arranjar dinheiro seu pai acabaria por perecer.
Dora estava certa de que no era apenas a doena que confinava
seu pai  cama. Ele estava fraco e no poderia ser alimentado segundo as recomendaes do mdico, a menos que arranjasse dinheiro para comprar alimentos.
Quando Philip ainda morava ali, costumava caar coelhos no campo, ou patos que pousavam no riacho que corria pelo velho parque. Ali, onde outrora existira um lindo
lago, via-se agora no mais do que lama e plantas aquticas.
Mas Philip estava longe e Jim mal conseguia segurar uma espingarda. . .
Alimentavam-se com os ovos de galinhas que criavam e com as verduras que Jim cultivava atrs do palacete. Aquilo, porm, era insuficiente para um homem enfermo,
necessitado de uma alimentao reforada.
- Venha, vamos ver l em cima, Jim - chamou Dora. - H um Fra Filippo Lippi em meus aposentos. Talvez papai no d pela falta dele.
Enquanto falava, a jovem estremeceu. Como poderia pensar em vender aquela linda pintura, que representava a Virgem Maria adorando o Menino Deus?
No conseguiria faz-lo. No suportaria continuar vivendo, sem contemplar aquelas lindas cores e a delicadeza de composio daquela obra de Lippi.
Talvez houvesse outra soluo.
Depois da morte de sua me, Dora levara para seu quarto um quadro de Van Dyck, intitulado Um descanso durante a fuga para o Egito.
Seu pai sempre costumava dizer que a Virgem segurando a Criana sagrada
assemelhava-se muito  jovem a quem desposara. To delicado elogio
parecia encher de luz o olhar meigo de sua me, que um dia por sua vez
dissera a Dora:
- A Virgem se parecia comigo, querida, mas agora  como se fosse seu retrato...
Mais uma vez a pobre moa teve que afastar aquela ideia. Como
poderia vender aquele quadro to querido, que lhe trazia de volta a lembrana de sua adorada me?
Perdidamente confusa e com um desejo imperioso de chorar, Dora foi at a janela e contemplou o jardim descuidado do palacete, por um momento.
- No temos nada para comer, senhorita - disse Jim. -  preciso tomar uma deciso depressa.
- Eu sei, e fico envergonhada s em pensar que voc esteja tambm
sofrendo por nossa causa. Na verdade, no sei o que faramos sem voc.
Fazia muito tempo que Jim no recebia seu ordenado.
- Pode deixar - continuou Dora. - Tomarei uma deciso ainda esta noite e,
quando papai dormir, empacotaremos todos os quadros que eu decidir vender
e voc os levar para o sr. Lewenstein, em Londres. Tenho certeza de que
ele pagar um bom preo por eles.
O sr. Lewenstein sempre tentara convencer seu pai a receber algum
dinheiro em troca dos trabalhos de restaurao que realizava nos quadros
da galeria que ele possua na Bond Street.
Alexander Colwyn, entretanto, sempre se recusara a aceitar qualquer tipo
de pagamento, dizendo que se o outro insistisse muito passaria a cobrar
pela visita  coleo de Mountsorrel.
- Pagaria com prazer - dizia o sr. Lewenstein. - Embora nenhum dinheiro
do mundo possa pagar inteiramente esse privilgio.
Recordando esses fatos, Dora pensava em quanto o orgulho podia ser
prejudicial. Se seu pai tivesse aceito aqueles pagamentos, agora no
estariam sofrendo tantas privaes...
Jim dirigiu-se  cozinha e Dora sabia que ele estava preocupado em
arranjar alguma coisa para o jantar de seu pai.
Talvez ainda restassem algumas verduras na horta e um ou dois ovos nos
ninhos das galinhas...
- Sim - pensou Dora, amargurada. - Jim tem toda razo. De que adiantar
guardar esses quadros at que Philip volte da ndia? Se demorar muito,
ele acabar por nos encontrar mortos pela fome!
Um ms antes, Philip lhes mandara algumas libras que, embora
muito bem-vindas, no tinham sido suficientes para suprir todas as
necessidades da casa.
- Acho que vou vender a tela de Jordaens - pensou Dora. Se papai der por
falta dela quando descer, direi que est guardada num lugar mais seguro,
pois a parede estava muito mida. Sim, o Jordaens ter que ir embora e,
se um dia Philip ficar rico, poder recuper-lo!
Dora considerava o futuro sombrio de sua famlia, quando bateram  porta.
Olhando pela janela, viu tratar-se do carteiro e dirigiu-se  cozinha
para atend-lo.
- bom dia, srta. Colwyn! - cumprimentou o homem. - Trouxe uma carta.
- Obrigada - agradeceu a jovem. - Como vai sua esposa? Espero que tenha
melhorado.
- Est um pouco melhor, sim. Acho que  devido ao bom tempo.
- Fico contente com isso - disse Dora. Apanhou a carta e despediu-se do carteiro.
- Outra carta! - murmurou, enquanto entrava.
De vez em quando recebiam cartas de credores insistentes de Londres,
pedindo que antigas contas fossem pagas, imediatamente. Entretanto,
olhando o envelope com mais ateno, a jovem percebeu que aquela no
podia ser uma simples carta de cobrana. O envelope era feito de um papel
fino e carssimo e, sobre ele, alm do endereo, lia-se apenas "Sr. Colwyn".
Dora abriu o envelope, curiosa. Desde que seu pai ficara doente, a jovem
decidira-se a poupar-lhe qualquer desgosto e, por conseguinte, abria toda
a correspondncia.
Pegou o papel da carta, tambm de excelente qualidade, e leu:
"O nobre Conde de Heversham foi informado a respeito da excelente
qualidade de Vossa Senhoria como restaurador de obras de arte.
"Como deve ser de vosso conhecimento, o digno Conde
 proprietrio de uma riqussima coleo de preciosas telas que, exceo
feita  coleo Real,  a mais bela de toda a grande Inglaterra.
"O Conde vos convida portanto a comparecer ao Castelo Heversham o mais
breve possvel, com a finalidade de restaurar algumas peas, necessitadas
de cuidados imediatos.
" Vossa Senhoria caber estabelecer o justo honorrio por seus servios,
que ser prontamente aceito pelo nobre Conde de Herversham. Ficaria
imensamente grato em receber uma resposta de Vossa Senhoria, no que se
refere  data de vossa provvel chegada.
Tenho a honra de ser, Ebenezer Jenkins, Secretrio do Nobre Conde de
Heversham. "
Ao concluir a leitura da carta, Dora suspirou. Desde criana soubera que
a coleo da famlia Herversham era uma das mais ricas de toda a Europa
e, na certa, o Conde devia ser um grande conhecedor de arte.
O sr. Lewenstein comparara, muitas vezes, a coleo de seu pai  do nobre
Conde:
- Ele possui muito mais Van Dyck do que o senhor, sr. Colwyn
- dissera o dono da galeria -, mas nenhum to magnfico quanto aquele
retrato que Van Dyck pintou de seu antepassado. E mesmo os Rembrandt da
coleo do Conde perdem em beleza, quando comparados aos que o senhor
possui.
Mesmo sabendo dessas opinies do sr. Lewenstein sobre a coleo do conde
de Heversham, Dora sempre nutrira o desejo de poder ver outras obras de
arte pintadas pelos artistas que tinham seus quadros no acervo da sua
famlia.
Olhando para a carta em suas mos, a jovem pensou que, infelizmente,
nunca teria a oportunidade de contemplar aquelas maravilhosas telas. No
apenas porque talvez seu pai no suportasse uma longa viagem at o
castelo do Conde, mas tambm porque ele sentir-se-ia insultado pelo tipo
de tratamento que o secretrio do Conde lhe dispensara
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na carta. Afinal, seu pai no era uma pessoa qualquer e aquele
homem se dirigira a ele como a um restaurador comum.
Dora suspirou. Era uma pena... Gostaria tanto de sair um pouco de
Mountsorrel... J fazia muito tempo que se sentia um pouco prisioneira
ali...
De repente, teve uma ideia que a princpio lhe pareceu meio louca. Em
seguida, porm, percebeu que talvez houvesse descoberto uma sada, para
no ter que se desfazer de um nico quadro da coleo de sua famlia.
Ainda com a carta nas mos foi at a cozinha, onde, quando seu av era
vivo, uma poro de empregados se movimentava o tempo todo, ocupados em
preparar deliciosas refeies. Agora, ali s restara o fiel Jim, que
naquele momento tentava acender um velho fogo para cozinhar uma sopa de
legumes.
- Jim, oua o que est escrito nesta carta que acabou de chegar. O velho
criado parou para escut-la com ateno. Quando Dora
terminou de ler a carta, Jim disse, rindo:
- O patro no vai gostar nada desta carta, senhorita. Vai ach-la
deveras impertinente.
- No teremos que mostr-la a papai - esclareceu Dora, rapidamente. - Mas
eu tenho uma ideia, Jim!
- E qual , senhorita? - perguntou o homem, interessado.
- Amanh voc ir a Londres, Jim. Entretanto no levar consigo um
quadro, mas sim esta carta, que dever ser mostrada ao sr. Lewenstein.
Voc pedir a ele que nos empreste dinheiro suficiente para podermos ir
at o castelo do conde Heversham e para podermos comprar comida e
remdios, a fim de que papai melhore o suficiente para enfrentar uma
viagem.
O velho criado olhou surpreso para Dora.
- Voc dir ao sr. Lewenstein que o pagaremos assim que recebermos o
dinheiro pelo trabalho de restaurao das obras da coleo do Conde.
- Mas, senhorita, o patro nega-se a aceitar qualquer tipo de
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pagamento por seus servios - ponderou Jm. - Alm do mais, ele no se
sente bem para trabalhar.
-  verdade - concordou Dora. - Mas eu posso trabalhar em lugar dele. Se
o conde nos der uma sala para trabalharmos, ele no precisar ficar
sabendo quem far o servio. Alm disso, quando papai se recusar a
aceitar o pagamento, eu mesma falarei com o Conde. Tenho certeza de que
ele compreender. De qualquer maneira, quando o conde de Heversham
conhecer papai, perceber que ele  um cavalheiro.
- Sem dvida, senhorita.
-  nossa nica chance, Jim - continuou Dora. - Se isso no der certo,
quando Philip voltar no encontrar mais nossa coleo. Meu pobre irmo
ficar inconsolvel...
A jovem sabia da grande afeio do criado por seu irmo e estava certa de
que ele faria qualquer coisa para evitar que Philip sofresse. Para o
velho Jim, era como se o rapaz fosse seu prprio filho e alm disso, Dora
no tinha dvidas quanto ao sincero afeto que aquele homem nutria por ela
e seu pai: eles eram a nica famlia que o pobre homem tinha.
Jim concordou com as palavras de Dora.
- Sabia que voc concordaria comigo. Tenho muita sorte por ter trs
homens tomando conta de mim. papai, Philip e voc. Que outra garota
poder ter mais sorte do que eu, no  mesmo?
- Um dia a senhorita encontrar o quarto - disse o criado, sorrindo. -
A, ento, no vai mais querer saber de ns trs.
 Dora divertiu-se com a brincadeira e aquele instante cheio de ternura foi
se dissipando.
No queria pensar muito no irmo naquele momento. Fazia alguns meses que
Philip no escrevia. O que teria acontecido?
- Talvez ele j esteja voltando para casa - dizia Dora ao pai, quando
este se mostrava preocupado pela falta de notcias do rapaz.
O que estaria realmente acontecendo a seu irmo? Estaria em perigo? Ser
que um dia chegaria a rev-lo? Dora rezava fervorosamente
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todos os dias, para que Philip retornasse para eles so e salvo, o mais
breve possvel...
- Combinado, ento. Amanh irei a Londres - disse Jim, depois de
considerar as palavras de Dora. - Tenho certeza de que o sr. Lewenstein
nos emprestar o dinheiro, Jim! - declarou Dora. - S gastaremos em
gneros de primeira necessidade!
- Compraremos apenas duas camisas, srta. Dora - insistiu o criado. -
Lavarei uma  noite, enquanto seu pai estiver usando outra durante o dia.
- Est bem, Jim. Papai precisa mesmo de roupas novas. Ele emagreceu
tanto... - Depois de uma ligeira pausa, Dora continuou:
- No esquea de cozinhar uma galinha para amanh. Como voc vai viajar,
eu  que darei a comida para papai.
- Fique tranquila, senhorita - garantiu o homem.
Dora estava cheia de esperanas. Daria tudo certo. Tinha que dar! Estava
muito entusiasmada com a perspectiva de conhecer a grande coleo do
conde Heversham!
Na manh seguinte, depois de uma noite maldormida, Dora viu Jim partir
para Londres,
O criado levava a carta do secretrio do Conde e o endereo do sr.
Lewenstein no bolso.
Ele e Dora haviam calculado que, se pegasse a carruagem que passava pela
aldeia s seis horas da manh, Jim estaria em Londres por volta da hora
do almoo. Se tudo desse certo, s seis da tarde o criado tomaria a
carruagem de volta.
Dora viveria um dia cheio de expectativa e, por isso, Jim tentaria fazer
tudo o mais depressa possvel, a fim de voltar logo para lhe contar as
novidades.
- No direi a papai aonde voc vai - dissera Dora. - Ele  to esperto,
que j me perguntou se eu havia sonhado com o meu prncipe encantado.
Disse que eu estava com uma bela expresso no rosto.
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? a senhorita parece muito feliz hoje - concordara Jim. Nunca a vi
assim.  que tenho o pressentimento de que as coisas mudaro para
ns.
Dora acompanhara Jim at a carruagem e se despedira do criado cheia de
esperanas. Ao voltar para o palacete, passara defronte  casa da famlia
Cole e a dona da casa aparecera  janela.
- bom dia, srta. Dora - cumprimentara ela. - Ser que seu pai gostaria de
um po fresquinho para o caf da manh?
-  claro, sra. Cole - respondera Dora. - Ele adora seu po. Ningum sabe
cozinhar como a senhora.
- Obrigada. Sua me tambm dizia isso. Ela era gentil como a senhorita. -
Obrigada.
Quando outras mulheres da aldeia viram a sra. Cole entregando o po 
jovem, resolveram presente-la tambm. Dora acabou voltando para casa com
ovos, gelia e manteiga, alm do po da sra. Cole.
Ela ficara comovida com a gentileza das mulheres da aldeia. Sabia,
entretanto, que no deveria mencionar o fato a seu pai, pois ele
certamente sentir-se-ia humilhado, ao saber que aquelas mulheres se
tinham apiedado deles por estarem em to desfavorvel situao.
Torcendo para que o velho Colwyn no fizesse perguntas embaraosas, Dora
preparou uma omelete, cortou o po em fatias, sobre as quais passou
manteiga e gelia, e colocou tudo numa bandeja.
Ao voltar para saber se seu pai desejava mais alguma coisa, a jovem
notara que a aparncia dele estava melhor.
- Diga a Jim que gostei muito do caf da manh - pediu Alexander. - O po
estava timo e seria bom que ele passasse a fazer essa receita sempre.
Enquanto descia as escadas, Dora foi pensando que a explicao para o
fato do po da sra. Cole ser melhor do que o de Jim era que o criado via-
se forado a fazer uso de ingredientes mais baratos e, portanto, de
qualidade inferior.
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Finalmente, Dora sentou-se para responder  carta que recebera no dia
anterior. com delicadeza, queria mostrar ao Conde que seu pai era um
senhor de alta linhagem, educado e prspero. Pensou um pouco
e escreveu:
"Seguindo instrues do sr. Alexander Colwyn Mountsorrel, venho agradecer
ao convite feito pelo excelentssimo Conde de Heversham para visitar o
castelo de sua propriedade, a fim de inspecionar os quadros de sua
preciosa coleo.
"Devido  urgncia, o sr. Colwyn tudo far para chegar ao castelo no dia
dezessete de junho e informar a hora prevista para sua chegada,
oportunamente.
"O sr. Colwyn far-se- acompanhar por sua filha e por um criado de
quarto.
"Ainda seguindo as instrues do sr. Colwyn, peo  Vossa Senhoria que
apresente ao Exmo. Conde de Heversham nossos agradecimentos, assim como
nossos mais sinceros respeitos.
Tenho a honra de ser,
Adolphus Nicholson,
Secretrio do Exmo. Sr. Alexander Colwin. "
Dora sorriu ao assinar a carta com aquele nome fictcio.
Esperava, ardentemente, que o Conde ficasse impressionado. Endereou o
envelope e dirigiu-se rapidamente  agncia de correio da aldeia.
De volta  casa, Dora viu-se assaltada por outra sria preocupao: o que
poderia ela usar no castelo de Heversham?
Suas roupas estavam velhas e imprestveis... Usar os vestidos de sua me
estava tambm fora de questo, pois alm de fora de moda estavam velhos e
gastos! O que fazer, ento?
Como gostaria de possuir os lindos trajes das mulheres dos quadros da
coleo de Mountsorrel!
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Ser que valeria a pena ir at o castelo do conde Haversham com aquelas
suas roupas que mais pareciam trapos?
- Oh, mame, ajude-me - rezou Dora, como uma criana assustada e confusa.
17

CAPITULO II

Dora estava costurando na sala de estar, quando ouviu passos no vestbulo
e percebeu que Jim tinha chegado. Antes mesmo que pudesse se levantar, o
criado abriu a porta e entrou na sala. Pela expresso triunfante dos
olhos dele, Dora sentiu que as notcias deviam ser as melhores.
- Deu tudo certo, Jim? - perguntou a jovem, ansiosa. - O sr. Lewenstein
entendeu nossa situao?
- Perfeitamente, senhorita, e emprestou uma quantia que nos permitir
viver por alguns meses!
- Quanto? - indagou Dora, automaticamente.
- Cinquenta libras.
A jovem arregalou os olhos e no conseguiu dizer nada. Jim continuou:
- Expliquei ao sr. Lewenstein exatamente tudo o que havia acontecido.
Disse-lhe, inclusive, que a senhorita pensava mesmo em procur-lo para
vender um dos quadros da coleo de Mountsorrel. Ele emprestou o
dinheiro, sem pestanejar.
- Mas  uma quantia enorme, Jim - exclamou Dora.
- Nem tanto, senhorita - replicou o criado. - No caminho de volta, parei
na mercearia e paguei tudo o que devamos. Acho que ia pedir-me para
fazer isso, no ?
-  claro, Jim - concordou ela.
- Comprei tambm tudo o que ser preciso para deixar o patro bem forte.
vou comear a cozinhar j.
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Jim j comeara a gastar o dinheiro emprestado, mas o que fazer? Dora
tinha conscincia de estar apenas trocando uma dvida por outra, mas no
havia dvidas de que Jim estava agindo certo.
O importante era fazer seu pai ficar forte e arranc-lo da apatia em que
se encontrava. Para isso bastaria falar-lhe sobre a perspectiva de visita
ao castelo Heversham.
Dora ainda nada dissera sobre o convite do Conde, temendo que o sr.
Lewenstein pudesse estar viajando ou se recusasse a emprestar o dinheiro,
o que os impediria de viajar.
- E tem mais, srta. Dora - continuou Jim. - O sr. Lewenstein disse que a
viagem direta at o castelo do Conde pode ser muito cansativa para seu
pai. Ele sugeriu que passemos a noite em casa dele, na cidade de Londres.
No dia seguinte, ele mesmo se encarregar de contratar uma carruagem para
levar-nos at o castelo Heversham.
- Mas assim a viagem sairia muito cara! - protestou Dora.
- Vamos deixar esse tipo de preocupao para o sr. Lewenstein
- ponderou Jim. - Ele tem razo, senhorita. No queremos que seu pai
chegue ao castelo a ponto de ter um colapso, no  mesmo?
- Claro que no - concordou Dora.
- Bem, ento est tudo combinado - disse Jim. - Iremos para Londres na
prxima tera-feira. At l prepararei tantas refeies gostosas para o
patro, que ele estar novinho em folha quando chegarmos ao castelo!
Nos dias que se seguiram, Dora comeou a acreditar que Jim estava certo.
As omeletes com bacon, bifes imensos, galinha assada e todos os demais
pratos saborosos que Jim preparava pareciam estar enchendo seu velho pai
de energia.
com quase dois metros de altura, Alexander Colwyn tinha sido forte
durante toda a vida e raramente adoecera.
No tempo em que possua cavalos de raa, seu pai era um cavaleiro de
primeira grandeza. Dora lembrava-se de que no vero, quando era ainda uma
criana, ficava a contemplar o pai nadando com grande
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habilidade no lago dos jardins de Mountsorrel, que agora se via bloqueado
por plantas aquticas e lama.
S quando comearam a ficar pobres e Alexander viu-se obrigado a comer
menos  que sua sade se fora debilitando e, depois da morte da esposa,
ficara ainda mais afetada. Ele acabara por perder o interesse por tudo,
exceto por seus quadros.
Quando Dora falou-lhe sobre o convite do conde de Heversham, Alexander
olhou para a filha incrdulo.
- Voc disse Heversham?
- Sim, papai. Parece mesmo um sonho, no? Falamos tantas vezes sobre a
magnfica coleo de quadros do conde de Heversham e agora ele o convidou
para ir conhec-la.
- Por qu? - indagou o velho Alexander.
- Porque ele quer saber sua opinio sobre as pinturas - respondeu Dora,
rapidamente. - Desconfio que ele conta com sua ajuda para restaurar
algumas delas.
Para completo alvio de Dora, seu pai no lhe pediu para ver a carta.
Tinha certeza absoluta de que, se ele a lesse, sentir-se-ia insultado e
se recusaria categoricamente a ir at o castelo Heversham.
O velho Alexander, entretanto, ficou to impressionado com o convite, que
disse, quase ansiosamente, que precisaria estar muito bem de sade para
poder viajar. Concordou imediatamente que a melhor maneira de conseguir
isso era comer tudo o que Jim preparava e, realmente, logo comeou a se
recuperar a olhos vistos.
O criado comprara, tambm, o remdio que o mdico receitara alguns meses
antes, mas que depois do primeiro frasco tinham desistido de comprar por
causa do preo.
Na segunda-feira seguinte, Alexander j passeava pelo palacete,
inspecionando seus quadros. Dora sabia que ele estava imaginando como
iria comparar a coleo Heversham  sua.
- De uma coisa voc pode estar certa, filha - disse ele  jovem -, o
Conde no tem um Van Dyck to lindo, a ponto de poder rivalizar com
aquele que est em seu quarto.
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claro que no, papai - concordou Dora, sabendo que seu
pai estava pensando na semelhana da Virgem com sua esposa. Como queria
agrad-lo, continuou: - Acho que no devemos nos preocupar com o que
veremos no castelo do Conde, papai. A coleo dele pode ganhar da nossa
em termos de quantidade, mas nunca em qualidade.
- Espero que sim, filha. Eu ficaria muito triste se a coleo Heversham,
alm de maior, fosse melhor do que a nossa! - disse Alexander, sorrindo
divertido.
Em seguida, Dora levou seu pai para descansar, pois partiriam em viagem
no dia seguinte. Quando ele j estava acomodado, foi para seu quarto dar
os ltimos retoques em seus vestidos.
Ela estava mais do que consciente do quanto aqueles trajes estavam velhos
e fora de moda. Alguns, inclusive, haviam pertencido  sua me. Para
tranquilizar-se resolveu pensar que o Conde, afinal, no devia passar de
um velho e que no haveria outros hspedes no castelo, a no ser ela e
seu pai. Portanto, por que se preocupar tanto com roupas?
Nunca na vida pensaria em gastar o dinheiro emprestado pelo sr.
Lewenstein em trajes para ela. Suas despesas deveriam se restringir 
compra de alimentos nutritivos e remdios para seu pai!
Nem mesmo queria tocar na comida que Jim comprara. O criado  que
insistia:
- Tambm precisa se alimentar bem, srta. Dora! Desse jeito, como ter,
afinal, uma boa aparncia?
A jovem sabia que Jim tinha razo e tratou de provar os pratos deliciosos
que ele preparava para seu pai.
Naqueles dias que antecederam a viagem, tanto Dora quanto o criado
sentiam-se mais calmos e satisfeitos. Tudo parecia estar comeando a dar
certo! Jim estava sempre assobiando durante os trabalhos na cozinha e
acabava por contagiar Dora, com tal entusiasmo.
Alm de suas roupas, Dora ocupava-se tambm de reparar as de seu pai.
Examinava todas as peas, principalmente as meias, para ver se estavam em
boas condies, antes de coloc-las na mala.
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As duas camisas e gravatas que Jim comprara em Londres eram realmente de
muito bom gosto e, com certeza, causariam boa impresso ao conde de
Heversham. Alexander ficou muito elegante ao vestilas. Embora seu terno
fosse bastante antiquado, ele realmente aparentava ser um grande
proprietrio rural: a aparncia, enfim, que o senhor de Mountsorrel devia
ter.
A notcia de que eles iriam viajar espalhara-se pela aldeia inteira.
Todos sabiam que os Colwyn estavam de partida para o castelo Heversham. O
vigrio local encarregara-se de busc-los, para conduzi-los at a parada
da carruagem, poupando, desta forma, Alexander do cansao de uma longa
caminhada.
Assim que subiram no trole antigo, Alexander disse:
- Foi muita gentileza sua, reverendo.
- Fico feliz em v-lo assim to bem-disposto, sr. Colwyn - disse o
vigrio. -  realmente uma grande honra que o conde de Heversham tenha
vindo em seu auxlio.
Dora, que escutava atentamente a conversa, estremeceu ao ouvir a palavra
"auxlio". S esperava que seu pai no a tivesse notado, do contrrio
ficaria furioso!
- Sempre quis conhecer a coleo Heversham - respondeu Alexander e Dora
respirou, aliviada. - Acho que vou gostar da experincia.
- Eu o invejo - retrucou o vigrio. - Se bem que para o senhor no ser
grande coisa ver a coleo do Conde. Afinal, a que o senhor possui 
simplesmente maravilhosa! Todos ns da aldeia Little Sorrel sentimo-nos
muito orgulhosos de ter uma coleo do porte da sua, aqui, pertinho da
gente.
No foi por acaso que ao entrar na carruagem Alexander estava de timo
humor. Dora agradeceu efusivamente a gentileza do vigrio e as palavras
amveis que ele dirigira a seu pai.
- Cuide bem deste homem, srta. Dora, e traga-o de volta so e salvo -
pediu o reverendo. - Temos muito orgulho de t-lo aqui, na aldeia.
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Quando Dora fitou-o com os olhos cheios de gratido, o vigrio chegou 
concluso de que ela era a garota mais bonita que seus olhos jamais
haviam contemplado. Era uma pena que no estivesse mais bem vestida para
uma viagem daquelas! Como entendia muito pouco sobre roupa de mulheres, o
vigrio rezou para que estivesse enganado.
Chegaram a Londres aps uma viagem razoavelmente tranquila, embora longa
e cansativa, e seguiram, diretamente, para a casa do sr. Lewenstein, em
St. John's Wood.
A casa no era muito grande, mas bastante confortvel e muito bem
decorada. Dora preferiu prestar ateno aos detalhes mais tarde, pois sua
nica preocupao naquele momento era colocar seu pai
na cama.
O sr. Lewenstein ofereceu um licor para amenizar o cansao de Alexander,
mas, mesmo depois de deitado, o pobre homem estava to plido que Dora
encheu-se de temor.
- A viagem foi longa demais para ele - disse Dora a Jim, assim que saram
do quarto de seu pai.
- Ele vai se recuperar, senhorita - tranquilizou-a Jim. - O patro s
precisa descansar e comer uma comida melhor do que a servida na estalagem
da estrada. Se aquilo no serviria nem para ratos, que dir para gente!
Dora riu, mas reconheceu que Jim tinha razo.
Sempre ouvira dizer que as carruagens de viagem paravam em pssimas
estalagens de beira de estrada e a que tinham tomado para Londres no
fora uma exceo  regra.
Como era de se esperar, a refeio na casa do sr. Lewenstein estava
deliciosa. Havia pat, pombos assados e recheados, bifes e mais meia
dzia de pratos, cada qual mais extico do que o outro.
- Fico admirada de o senhor conseguir manter-se to magrinho, comendo
refeies to soberbas! - exclamou Dora, dirigindo-se ao sr. Lewenstein.
23
- Sou magro por natureza, minha filha. Mas a senhorita precisa conhecer
minha esposa: ela  bem gorda! - brincou o anfitrio.  uma pena que ela
tenha ido viajar. Tenho certeza de que ficar muito chateada quando eu
contar que a senhorita e seu pai estiveram hospedados aqui, durante a
ausncia dela. A sra. Lewenstein adoraria conhec-la!
A conversa foi mudando de rumo e acabaram falando de coisas mais srias.
- Seu criado me disse que, no dia em que recebeu o convite do conde de
Heversham, a senhorita estava pensando em vender um dos quadros de seu
pai - comentou o sr. Lewenstein.
- A coleo no pertence a meu pai, senhor; ela pertence a Mountsorrel -
respondeu Dora. - Eu estava desesperada e no via outra maneira de salvar
a vida de papai.
- Se me tivesse escrito, eu poderia ter ido at o palacete resolver seus
problemas, srta. Dora - disse o homem.
- Sei o quanto  gentil, sr. Lewenstein. Mas de qualquer modo o convite
do Conde foi um verdadeiro milagre! Para falar a verdade, ele me impediu
de fazer uma coisa que seria indiscutivelmente errada!
- Sem dvida, srta. Dora. Mas no futuro a senhorita no deve deixar que
as coisas cheguem a esse ponto - aconselhou o sr. Lewenstein.
- Se pelo menos Philip estivesse em casa! Acho que tudo isso  muita
responsabilidade para mim! - murmurou Dora, tristemente.
- Vi -seu irmo s uma vez e o achei um rapaz belo e extremamente bondoso
- comentou o homem. - Tenho a mais absoluta certeza de que, se ele
estivesse nessa situao, tambm no hesitaria em vender uma obra da
coleo da famlia, para salvar a preciosa vida de seu querido pai.
- , eu tambm tenho certeza de que meu irmo no hesitaria em fazer isso
- concordou Dora, lembrando-se ternamente de Philip.
Enquanto falava, entretanto, Dora sabia que as coisas no eram to
simples quanto pareciam.
24
A coleo significava muito para seu pai e havia sido formada atravs dos
sculos pela famlia Colwyn. Vender uma daquelas obras preciosas
significaria uma desonra e uma verdadeira traio a seus antepassados.
- Se a situao piorar um dia, a senhorita dever vender os quadros para
mim - continuou o sr. Lewenstein. - Eu lhe prometo, de todo o corao,
que pagarei muito bem por tudo o que quiser me vender. A senhorita esteja
certa de que ficar com dinheiro suficiente para viver tranquila com seu
pai por vrios anos, sem ter que se preocupar com problemas de
subsistncia.
Dora teve mpetos de gritar aos quatro cantos que no queria vender sua
coleo por dinheiro nenhum do mundo. Aquilo poderia significar a morte
de seu pai! Aquele, todavia, no era o momento apropriado para exploses
emocionais. Por isso, respirou profundamente e disse:
- Fico-lhe muito grata, sr. Lewenstein. Esteja certo de que, se eu tiver
que vender uma das pinturas, o senhor certamente ser o primeiro a ser
informado. Fique tranquilo quanto a isso, est bem?
Pela expresso de felicidade estampada no rosto do sr. Lewenstein, Dora
compreendeu claramente que tinha dito exatamente o que ele queria ouvir.
Em seguida, levantou-se e despediu-se do anfitrio, indo para um dos
quartos de hspedes.
Dora acordou logo cedo na manh seguinte, depois de uma noite bem
dormida. A criada do sr. Lewenstein lhe entregou o vestido que usaria
para viajar e, aps se arrumar, tomou seu ch com uns biscoitos
deliciosos.
Em seguida, dirigiu-se at o quarto onde seu pai passara a noite. Ficou
contente por encontr-lo bem-disposto e falante.
- Dormi como uma criana, filhinha querida - disse ele, enquanto Jim o
ajudava a vestir-se. - vou lhe dizer uma coisa, Dora. No saio daqui
enquanto no vir a coleo de Lewenstein. Eu desconfio que ele deve ter
preciosidades dentro desta casa... preciosidades
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que ele compra por uma ninharia! Tenho certeza disso, minha filha!
- Fale baixo, papai - recomendou Dora, preocupada. - O sr. Lewenstein
pode ouvi-lo e ficaria ofendido com suas palavras. Ele tem sido muito
gentil conosco e isso o senhor no pode negar, no  mesmo?
- Sim,  claro - concordou Alexander. - Mas no devemos nos deixar
enganar, filhinha. Lewenstein  um comerciante e os negcios tm
prioridade para um verdadeiro comerciante... ainda mais quando se trata
de algum to astuto como Lewenstein!
Dora no queria pensar nas palavras de seu pai, mas sabia que se no
possussem a rica coleo de pinturas, de Mountsorrel, Lewenstein jamais
os receberia em sua casa. Na verdade, ele sonhavi em possuir, um dia,
pelo menos parte daquela preciosa coleo, o que lhe traria muito
prestgio e dinheiro.
Quando seu pai desceu para o caf da manh, o sr. Lewenstein levou at
ele vrios objetos de arte, a fim de que pudesse admir-los.
Ficaram apreciando as vrias preciosidades do colecionador at perto do
meio-dia, quando ento um criado apareceu anunciando que o almoo estava
servido.
Alexander bebeu e comeu bem durante a refeio e assim que tomou assento
na carruagem que os levaria ao castelo do conde Heversham adormeceu.
Dora estava muito agradecida ao sr. Lewenstein. Afinal de contas, alm de
lhes emprestar o dinheiro e de receb-los em sua casa, ainda lhes
emprestara uma de suas carruagens. Ela havia escrito uma outra carta ao
secretrio do Conde e esperava, ardentemente, que fossem bem recebidos
quando de sua chegada ao castelo, no final da tarde.
As coisas pareciam estar mudando! Como pudera deixar a situao chegar a
ponto de atingirem quase que a misria total? Como pudera permitir que
seu pai passasse fome? No futuro, haveria de ser mais corajosa e faria o
possvel para que nunca mais ela, seu pai e Jim voltassem a sofrer como
tinham sofrido!
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Se sua me fosse viva, na certa ficaria envergonhada de ver como a filha
tinha sido fraca, e como se deixara vencer pelo desnimo to facilmente.
Agora, entretanto, iria mudar! Dora tinha certeza de que, com a ida para
o castelo do conde de Heversham, seu pai iria conseguir o sustento para a
famlia. Se ele no conseguisse realizar o trabalho, ela mesma tomaria a
dianteira e o faria por ele. Tudo teria que dar certo!
A viagem parecia interminvel. Ser que conseguiriam chegar no horrio
combinado?
Chovia, e a lama que se formava na estrada fazia com que os cavalos se
fatigassem rapidamente. Alm disso, ococheiro se perdera no caminho e
demorou muito at conseguir encontrar a estrada que conduzia ao castelo.
J eram quase sete horas da noite quando entraram na alameda de carvalhos
que os levaria at a propriedade do conde de Heversham.
Dora, com uma estranha emoo nascendo dentro do seu corao, acordou seu
pai:
- Papai, estamos chegando! - anunciou ela.
- O qu? Onde estamos chegando, filhinha? - perguntou Alexander,
atordoado pelo sono.
- Ao castelo do conde de Heversham, papai! - exclamou Dora, presa de uma
desconhecida excitao. - J estamos chegando! Daqui a minutos estaremos
l!
- E j no  sem tempo! - replicou Alexander, endireitando-se no assento
da carruagem.
Dora tinha que admitir que tambm pensava o mesmo. Sentia-se extenuada
pela viagem. De repente, estremeceu. Estivera to preocupada com o pai e
com seus negcios que esquecera de perguntar ao sr. Lewenstein como era o
castelo onde passariam alguns dias e como era o Conde que seria seu
anfitrio. Seria ele um senhor bondoso e compreensivo, ou autoritrio?
A fachada do castelo era em estilo georgiano, cheio de colunas corntias
e com um prtico imenso. Era um lugar assustadoramente
belo.
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- Que construo maravilhosa - pensou Dora, intimidada pela imponncia do
castelo.
Quando a carruagem parou em frente ao prtico do castelo, Jim desceu para
ajudar seus patres.
Logo um mordomo abriu a porta principal, aproximou-se de Alexander e
indagou:
- Seu nome, senhor?
- Sou Alexander Colwyn e estou sendo esperado por seu patro.
- Alexander... Ah, sim.  a pessoa que vai cuidar dos quadros Estvamos
esperando pelo senhor, mas no to tarde disse o mordomo.
Antes mesmo que Alexander pudesse dizer qualquer coisa, o homem virou
para um criado que o acompanhava e disse:
- Fale para o cocheiro levar a carruagem para os fundos. - Em seguida,
virando-se para Alexander novamente, continuou: - Se o senhor quiser ter
a bondade de seguir o criado, ele o levar at seus aposentos, pela porta
dos fundos. O jantar ser servido, assim que vocs estiverem prontos.
Dora estremeceu. O mordomo falara a seu pai, como se tambm ele no
passasse de um servial!
- O conde de Heversham est? - perguntou Alexander, quase gritando e
espumando de raiva.
- Sim, mas est ocupado - disse o mordomo. - Amanh...
- Quero ser anunciado imediatamente! - ordenou Alexander, no tolerando
mais aquele tipo de tratamento.
O mordomo olhou surpreso para o velho Colwyn. Ele j reparara em seu
porte imponente e agora percebia que, no fundo, aquele homem devia ser um
aristocrata.
- Voc me ouviu? - exclamou Alexander, num tom de voz que no admitia
contestaes. - Anuncie-me como o sr. Alexander Colwyn de Mountsorrel e
sua filha, srta. Dora Colwyn!
Sem esperar, Alexander foi adentrando no castelo, passando pelo
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vestbulo e chegando  sala de estar principal, sob os olhares surpresos
de todos os criados.
O mordomo correu atrs dele, passou-lhe  frente e, antes que o pai de
Dora entrasse na sala de estar principal do castelo, onde estavam algumas
pessoas, anunciou:
Sr. Alexander Colwyn de Mountsorrel, senhor. E sua filha, srta.
Dora Colwyn!
A jovem, que tambm correra atrs do pai, percebeu que todos no salo
ficaram em silncio. Em seguida Alexander comeou a se dirigir ao grupo
de pessoas que se encontrava na sala. Ele caminhava com calma, agora,
embora estivesse com uma expresso cheia de orgulho no olhar. Dora achou
conveniente segui-lo.
Logo, um homem afastou-se do grupo e caminhou na direo de Alexander.
Tratava-se, sem dvida, do conde de Heversham. Era alto, forte e, ao
contrrio do que Dora imaginara, bem jovem ainda.
"Como  belo!", pensou Dora, embora no estivesse gostando muito da
expresso nos olhos do Conde.
Ela sentia-se extremamente embaraada pelo fato de seu pai ter forado
aquela situao. Na certa, o Conde no devia ter gostado que sua recepo
particular tivesse sido interrompida to bruscamente.
Alexander, no entanto, parecia muito  vontade e antes que o Conde
pudesse dizer qualquer coisa, comeou:
- Boa noite, senhor! Espero que desculpe a mim e  minha filha por
estarmos to atrasados. Na verdade, as estradas ficaram praticamente
intransitveis com a chuva e nosso cocheiro, para piorar a situao,
tomou o caminho errado e foi difcil encontrar o castelo. Por favor,
aceite nossas desculpas, especialmente pelo fato de termos causado o
atraso do jantar!
Dora corou imediatamente. Seu pai estava pensando que o Conde os esperava
para jantar!
- Estou encantado, sr. Colwyn - disse o Conde, aparentando bastante
calma. - Sinto muito que a viagem no tenha transcorrido sem incidentes.
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Os dois apertaram as mos e em seguida Alexander falou:
- Deixe-me apresentar-lhe minha filha.
Dora fez uma reverncia e estendeu a mo. O Conde falou:
- Vocs dois precisam de uma bebida, mas antes venham conhecer meus
amigos.
Um criado trazendo champanhe apareceu como num passe de mgica. Dora mal
podia disfarar o tremor de sua mo, enquanto segurava a taa...
O Conde comeou a apresent-los:
- O sr. Alexander Colwyn, lady Sheelah Turvey, srta. Colwyn... E, assim,
foram sendo apresentados a todas as pessoas presentes.
Dora mal conseguia lembrar de todos aqueles nomes e s pensava que, at
aquele dia, no conhecera mulher to bela quanto lady Sheelah.
Usando um vestido de cetim verde e com um colar de esmeraldas em volta de
seu pescoo nu, aquela mulher mais parecia uma deusa. A beleza de seu
vestido realava, ainda mais, o ruivo de seu cabelo elegantemente
penteado.
Depois de apresent-los a todos os presentes, o Conde falou, gentilmente:
- E agora, sr. Colwyn, tenho certeza de que vocs gostariam de se lavar e
trocar de roupas. Infelizmente, a viagem de Londres at aqui  muito
cansativa.
- Ficaremos prontos o mais rpido possvel, senhor - garantiu Alexander.
- E mais uma vez, desculpe os transtornos que lhe estamos causando.
- No se preocupe com isso, senhor - respondeu o Conde sorrindo. Ele
dirigiu-se, ento, ao mordomo: - Acompanhe o sr. e a srta. Colwyn at os
aposentos deles, Dawson, e tome todas as providncias para que nada lhes
falte. Diga ao cozinheiro-chefe que o jantar atrasar mais um pouco.
No era preciso sequer olhar a expresso surpresa do mordomo, para saber
que ningum esperava que ela e seu pai fossem jantar em companhia do
Conde e no com os outros criados.
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Enquanto o prprio mordomo subia as escadas com eles para lhes apresentar
 governanta que os esperava, Dora chegou  concluso de que aquela
situao poderia ser considerada at divertida.
Seu pai, com aquela maneira arrogante de ser, quebrara todas as barreiras
sociais e conseguira impor sua presena de maneira espantosa!
Dora no teve tempo de falar com o pai, pois assim que este entrou no
quarto, onde Jim e um outro criado j o esperavam para ajud-lo a vestir-
se, a governanta pediu-lhe que a seguisse at o quarto que a jovem
ocuparia.
Era um aposento to encantador quanto o de seu pai que ficava ao lado.
Como tiveram que andar muito para chegar at ele, Dora calculou que
aqueles quartos ficavam na parte velha do castelo.
Mas aquele no era o melhor momento para ficar fazendo perguntas ou
suposies e, por isso, foi tratando de se arrumar, ajudada por uma
criada, que viera para prestar-lhe auxlio.
Lavou-se rapidamente e pediu  criada que tirasse seu nico vestido de
noite, que pertencera  sua me.
Era um vestido de seda cor-de-rosa, do mesmo tom do manto que Van Dyck
pintara para o quadro de Nossa Senhora e Jesus que tinha em seu quarto.
Estava um pouco fora de moda, e por isso Dora fizera o possvel para
reform-lo, transformando-o um pouco. Sabia, porm, que ele no ficara
perfeito. Os vestidos da moda tinham saia muito rodada e o dela poderia
parecer at justo demais, se comparado ao de lady Sheelah.
Como no tinha jias para usar, resolveu colocar um lao de cetim, da
mesma cor do vestido, no pescoo. Embora soubesse que aquela simples fita
de tecido jamais substituiria um colar de pedras preciosas, esperava que
ela desse um toque de elegncia a seu traje.
- Bem, mas por que estou to preocupada? - pensou Dora, sorrindo. -
Ningum olhar para mim, com lady Sheelah por perto.
Sem se preocupar em fazer um penteado da moda, simplesmente
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prendeu seu cabelo num belo coque atrs da nuca. Enfeitou-o com uma
fivela, que tambm pertencera  sua me.
- Acho que agora j est pronta, senhorita - disse a criada. Dora sentiu
um sbito arrepio de medo percorrer-lhe a espinha.
Como poderia descer as escadas e encontrar todas aquelas pessoas, sabendo
que sua roupa nem chegava aos ps do lindo vestido da convidada do Conde?
- No se preocupe - Dora disse a si mesma. - Ningum prestar ateno em
voc, l embaixo. Estaro todos muito ocupados em observar a elegncia e
a extrema beleza de lady Sheelah.
O que deveria ter em mente  que, de uma forma ou de outra, o que
importava  que estavam na casa do Conde para trabalhar e que seriam
pagos para isso.
"Tenho que arranjar um meio de conversar sozinha com o Conde!", pensou
resoluta, embora aquela ideia a deixasse mais nervosa do que qualquer
outra.
A criada abriu a porta no exato momento em que Alexander saa de seu
quarto, j elegantemente vestido.
- Como voc est bonita, filhinha querida! - disse ele, sempre galante. -
J est pronta para descer? Estou faminto!
Ao chegarem  entrada da sala de visita principal, o mordomo, talvez com
medo da ira de Alexander, apressou-se em anunci-los aos presentes:
- Sr. Colwyn de Mountsorrel e sua filha, srta. Dora Colwyn! Dora viu que
os outros convidados do Conde ainda estavam com
suas taas de champanhe na mo. Lady Sheelah, sentada numa poltrona,
olhava para todos com uma expresso petulante.
Enquanto caminhava pela sala, Dora percebeu que aquela mulher olhava para
ela e para seu pai, como se estivesse querendo dissec-los.
- Vocs foram extremamente rpidos! - disse o Conde sorrindo.
- Para o senhor ver como a fome consegue apressar um homem
- replicou Alexander.
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E uma mulher tambm - respondeu o Conde, olhando para
Dora.
Um criado trouxe champanhe para eles, e o Conde fez questo de tirar uma
das taas da bandeja para oferecer pessoalmente a Dora.
Acho que voc est precisando beber um pouco - disse ele,
atenciosamente.
O Conde a observava com uma expresso penetrante. Dora abaixou os olhos,
e seus clios escuros e longos fizeram um belo contraste com sua face
plida.
Sabia que seria educado dizer alguma coisa naquele momento, mas no sabia
o qu. Felizmente, o jantar foi anunciado naquele instante.
- Finalmente iremos jantar! - exclamou Sheelah, levantando-se.
- Pensei que ficaramos at amanh sem comer nada!
- Ora, minha cara Sheelah, no seja assim to mal-educada disse,
divertido, o homem que estivera sentado ao seu lado at aquele momento. -
Afinal, voc sempre se atrasa para o jantar.
- Mas  porque sempre demoro para me arrumar. Quero estar sempre linda
para todos vocs - replicou Sheelah, com uma voz cheia de charme.
- Voc no precisa perder seu precioso tempo para conseguir isso,
Sheelah. Voc  naturalmente bela - foi a resposta galanteadora que o
homem lhe deu.
A moa, entretanto, no ouviu aquela resposta. Estava caminhando em
direo ao Conde e chegou perto dele, justamente a tempo de ouvi-lo
dirigir-se a Dora de maneira muito elegante, o que a deixou furiosa. O
Conde dizia:
- Como  a primeira vez que vem ao meu castelo, gostaria que me
permitisse acompanh-la at a sala de jantar, srta. Colwyn.
Dora ficou mais envergonhada ainda, mas conseguiu colocar a mo no brao
do Conde rapidamente, como sua me lhe havia ensinado, anos atrs.
Como se percebesse o que Sheelah estava sentindo, Alexander dirigiu-se a
ela:
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- Ser que eu teria a honra de acompanhar uma mulher to linda que mais
parece ter sado de uma dessas pinturas maravilhosas que o Conde tem nas
paredes?
- Obrigada - replicou Sheelah, com um lindo sorriso. - Era isso o que o
nosso Conde sempre deveria dizer-me se no fosse to distrado.
Caminharam at a sala de jantar, passando por uma longa galeria cheia de
belas pinturas. Dora teve vontade de parar para admir-las, mas sabia que
naquele momento seria impossvel.
- Estou muito curiosa para conhecer sua coleo, sr. Conde disse ela, de
repente, aproveitando para iniciar uma conversa com seu anfitrio.
- Ser que a senhorita entende tanto de pintura quanto seu pai?
- indagou o rapaz.
- Bem que eu gostaria - replicou Dora, sorrindo. - No entanto, como nasci
entre obras de arte, acho que sei apreci-las convenientemente.
O Conde sorriu e declarou:
- vou test-la amanh, ento. Estou certo de que vai adorar meus Van
Dyck!
- Meu pai me disse que seus Van Dyck no devem chegar aos ps dos nossos
- brincou Dora.
A jovem sabia que suas palavras iriam surpreender o Conde. Afinal, ele
achava que seu pai no passava de um simples arteso restaurador.
- Vocs tm um Van Dyck? - perguntou ele, realmente bastante surpreso.
- Um no, trs. Temos dois que so retratos de nossos antepassados e um
outro, cujo ttulo  O descanso durante a fuga para o Egito.
- Sei de que quadro est falando - disse o Conde. - Mas o de sua famlia
deve ser, logicamente, uma cpia.
- Uma cpia? - exclamou Dora, chocada. - Como pode saber que nosso quadro
 uma cpia? Afinal, o senhor nem ao menos o viu!
-  que o original pintado por Van Dyck est aqui no castelo explicou o
rapaz.
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Dora ficou estarrecida com aquelas palavras, mas nada pde dizer, pois j
haviam chegado  sala de jantar.
Era um aposento enorme, revestido de mrmore e cheio de janelas. Entre
elas, em todos os espaos disponveis, havia quadros que, Dora estava
certa, haviam sido pintados por artistas de renome. A jovem percebeu que
muitos deles estavam precisando de uma boa restaurao, pois o tempo os
deixara muito escuros e estragados.
O servio de jantar era em ouro e os finssimos candelabros tambm. A
porcelana era de Svres e os copos e jarras de cristal lapidado.
Dora sentou  direita do Conde e Sheelah  esquerda dele.
Alexander sentou-se ao lado de Sheelah e, imediatamente, iniciou uma
conversa com seu vizinho  direita sobre a situao dos quadros
existentes nas principais colees inglesas, sobretudo a respeito do
acervo da National Gallery que, segundo ele, estava em pssimas condies
de conservao.
-  uma tristeza olhar para aquelas autnticas obras de arte e ver como
esto precisando urgentemente de uma boa restaurao - comentou ele.
Sheelah, imediatamente, voltou-se para o Conde e comeou a conversar com
ele em voz baixa. Dora ficou perdida, por um momento, e aproveitou para
admirar mais um pouco aquele lindo aposento, cheio de luxo.
- Bem, o que est achando de tudo por aqui? - perguntou-lhe seu vizinho
da direita, com uma expresso bastante divertida no olhar.
- Da sala? Simplesmente maravilhosa. Parece um sonho. - A jovem olhou
para o Conde, que ainda conversava com Sheelah, e falou em voz baixa para
o rapaz a seu lado. - Pensei que o Conde fosse bem mais velho. Essa linda
coleo, seguramente, deve ter pertencido ao pai dele.
-  verdade - disse o rapaz. - Kimball herdou-a esse ano, aps a morte do
pai. A coleo no est em bom estado de conservao, e quando ouviu
falar de seu pai, Kimball resolveu mandar cham-lo, imediatamente.
imediatamente.
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Percebendo que suas palavras tinham sido um pouco rudes, o rapaz
consertou:
- Ou melhor, Kimball resolveu convidar o sr. Colwyn para examinar sua
coleo. Eu acho que ele fez muito bem, pois seu pai  considerado um
grande restaurador. Alm do mais, achei muito interessante a senhorita
ter vindo com ele.
- Muito obrigada - agradeceu Dora, gentilmente. - Nunca pensei que isso
fosse me acontecer, algum dia. Nunca pensei...
- A senhorita fala como se nunca tivesse estado num castelo antes
- retrucou o rapaz.
- Para ser sincera... nunca estive num castelo to lindo assim em toda a
minha vida - confessou a jovem.
- Fiquei observando a maneira como a senhorita admirava a sala... Parecia
mais uma criancinha diante de um teatro de marionetes. Estava encantada.
-  verdade - sorriu Dora. - Mas no um teatro de marionetes. Estou me
sentindo no palco de um teatro para adultos, onde se passam vrios
dramas.
- E a senhorita quer ser a herona d algum deles? - perguntou algum,
num tom de voz bastante brincalho.
Dora estremeceu, visivelmente. Fora o conde Kimball de Heversham que
dissera aquelas palavras, pois tinha, evidentemente, escutado sua
conversa com o rapaz:
-  claro que no, senhor - replicou ela, rapidamente. - No sou mais que
uma espectadora.
Kimball riu divertido.
- No sei se devo acreditar. No quando a senhorita acaba de me dizer que
tem um Van Dick-em sua casa, ainda que seja uma cpia.
Dora olhou assustada na direo de seu pai e depois disse em voz baixa:
- Por favor, sr. Conde. No deixe que meu pai o oua dizer isso... E...
se possvel... gostaria de conversar com o senhor, antes que falasse com
meu pai... Gostaria de falar-lhe... a ss, se fosse possvel...
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Kimball olhou para Dora, como se no tivesse ouvido bem as palaras da
garota. Em seguida, porm, percebendo a expresso suplicante dos olhos
dela, respondeu:  claro, fique tranquila.
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CAPITULO III

 Dora acordou e permaneceu deitada em sua cama, pensando em tudo o que lhe
havia acontecido na noite anterior. Quantas emoes sentira em to poucas
horas!
Quanto  recepo, parecia ter assistido  uma pea de teatro, onde no
passara de mera espectadora. S quando acompanhara Sheelah para fora da
sala de jantar,  que tudo parecera tornar-se mais real.
Ao levantar-se da mesa de jantar, Sheelah tinha dito a Kimball:
- No demore, querido. Voc sabe como me sinto aborrecida sem voc ao meu
lado.
O rapaz nada respondera e Sheelah sara ento da sala, olhando
sedutoramente para o cavalheiro que lhe abrira a porta.
Sentindo-se pequena e insignificante, Dora a acompanhara, sem deixar, no
entanto, de admirar os quadros da galeria por onde passava. Reconhecera
vrios deles e pensara que em outra oportunidade gostaria de v-los com
mais calma.
Pelo estado de conservao dos quadros, Dora havia chegado  concluso de
que ela e seu pai teriam que ficar por muito tempo ainda no castelo. Que
maravilha! Pelo menos assim poderiam comer e beber bem por alguns meses!
"Papai adorou o jantar. E fez questo de deixar claro que nossa coleo
tambm possui obras to importantes quanto a do Conde".
Sheelah tinha caminhado at a frente de um espelho de cristal assim que
chegara  ampla sala de estar, que mais parecia um salo de festas.
Ficara admirando-se por alguns minutos, arrumando o colar de esmeraldas e
um amassado inexistente no decote do vestido. Em seguida,
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tirara uma caixinha de p-de-arroz de sua bolsa e passara um pouco de p
sobre o rosto.
Dora achara estranho aquele procedimento, pois sua me sempre lhe dizia
que uma mulher de sociedade nunca se deveria maquilar em pblico. Se uma
dama desejasse usar um pouco de maquilagem, deveria faz-lo muito
discretamente, sem que ningum percebesse.
- Nunca vi a senhora com maquilagem - dissera Dora  me.
- Voc e eu tivemos sorte, querida. Nossa pele  muito perfeita e no
precisa de artifcios.
Dora, muito jovem naquela poca, levou a mo at o rosto.
- Nossa pele  diferente da das outras mulheres, mame? perguntara.
- Acho que herdamos essa tez de uma antepassada de origem espanhola,
filhinha. Meu pai costumava dizer que mame tinha uma pele que parecia
feita de ptalas de magnlia. Ele era to gentil...
Dora, ento, observara:
- E  isso o que papai tambm costuma dizer para a senhora!
- E seu marido um dia tambm lhe dir o mesmo, filhinha dissera-lhe a me
com um sorriso.
Interessante. Nunca mais se lembrara daquela conversa, at ver Sheelah
aplicando p-de-arroz no rosto.
Acabando de retocar a maquilagem, a dama afastara-se do espelho e
sentara-se no sof. Sabendo que no seria elegante ficar quieta ao lado
de outra pessoa, Dora perguntara a Sheelah:
- A senhora e seu marido sempre se hospedam nesse castelo maravilhoso?
Para sua mais completa surpresa a outra jovem a tinha encarado com
rancor, antes de dizer com voz firme e surpreendentemente autoritria:
- Voc no tem o menor direito de me fazer uma pergunta to impertinente.
Se no fosse to idiota, voc perceberia que no se deve forar a
presena num jantar de aristocratas. Voc e seu pai deviam estar jantando
com os outros criados, sua garota petulante!
39
Aquele ataque fora to brusco que Dora no conseguiu sequer replicar o
que a outra dissera. Como se ainda no estivesse satisfeita, Sheelah
voltara a falar, depois de suspirar profundamente, como que tentando
recobrar suas foras:
- E tem mais: se eu estivesse no seu lugar, no teria coragem de usar uma
roupa to fora de moda como essa que est usando!
Sheelah pronunciara aquelas palavras de forma to desagradvel que toda
sua fulgurante beleza parecia ter, de repente, se apagado.
Dora pensara depressa numa poro de respostas para dar quela mulher.
Desejara coloc-la em seu lugar e mostrar-lhe que deveria ter um pouco
mais de educao para lidar com as pessoas. Afinal, uma mulher mal-
educada tornava-se horripilante, por mais bonita que fosse! Achara,
entretanto, melhor permanecer calada. Sua me no aprovaria que ela
respondesse a Sheelah, pois se o fizesse estaria agindo de maneira to
vulgar quanto aquela mulher.
Tensa, com os lbios tremendo de indignao, Dora levantara-se, dera as
costas  Sheelah e caminhara at a frente de um lindo quadro que decorava
a sala.
Seu nervosismo impedira-a inicialmente de distinguir os contornos do
quadro. Aos poucos, porm, as formas elegantes das figuras pintadas por
Fragonard foram se tornando visveis a seus olhos e a jovem pde, ento,
admirar a mestria do clebre e talentoso pintor francs.
Ali permanecera, examinando aquela obra sem mais dirigir a palavra a
Sheelah, at que os homens entraram na sala. Imediatamente percebeu que
seu pai no estava entre eles. Kimball dirigiu-se a ela:
- Seu pai estava um pouco cansado e preferiu recolher-se, senhorita. Mas
espero que fique conosco mais um pouco.
- No, obrigada. Preciso ir ver papai - disse Dora, rapidamente.
- Agradeo muito pelo jantar magnfico que o senhor nos proporcionou.
Dora fora direto para a porta, mas Kimball fizera questo de acompanh-
la:
- Seu pai est sendo cuidado pelo criado - explicara ele. 40
Tem certeza de que no quer nos fazer companhia? Posso lhe assegurar que
meus convidados so pessoas inteligentes e muito divertidas. Passaremos
algumas horas agradveis.
Involuntariamente, Dora olhara para o sof onde Sheelah estava sentada e
dissera:
- Tenho certeza que sim.
- Entendo - replicara Kimball, educadamente. - Amanh, ento, teremos
aquela conversa particular que me pediu durante o jantar. Est bem?
- Sim, por favor - respondeu Dora. - Nossa conversa ser muito
importante!
Kimball sorriu para ela. Dora fizera uma reverncia muito educada e
caminhara rapidamente em direo  escadaria que levava ao andar
superior.
Assim que entrara no quarto de seu pai, Dora percebera que ele estava a
ponto de ter um colapso. Estava numa poltrona e Jim ajudava-o a colocar
sua roupa de dormir.
Somente quando j estava deitado  que Alexander falara com voz dbil:
- Fique... sossegada, filhinha querida. Amanh de manh... estarei
melhor...
-  claro, papai - sussurrara Dora, percebendo o quanto seu pai estava
plido.
Minutos depois Alexander j dormia. Saindo do quarto, Jim comentara com a
jovem patroa:
- No deve ficar to preocupada, senhorita. O patro logo estar bem.
Neste castelo maravilhoso ele ficar completamente restabelecido em menos
de um ms. Pode escrever o que estou lhe dizendo.
- Espero que voc tenha razo, meu caro Jim - respondera Dora, bastante
apreensiva.
- Claro que tenho! - exclamara o criado. - Se Bem que eu ache que o
patro no deva sair da cama amanh, durante o dia inteiro. No  bom
abusar muito da sorte.
- Ser que as pessoas no iriam estranhar, Jim? - perguntara Dora,
preocupada.
- E quem se interessa pelo que eles pensem ou deixem de pensar,
senhorita? Eles querem que o patro restaure os quadros do castelo, no 
assim? Ento eles tero que esperar at que o sr. Alexander esteja em
forma!
Dora no pudera deixar de rir. Jim sempre se tornava agressivo, quando se
tratava de salvaguardar a sade de seu patro.
- A senhorita j viu o estdio que eles reservaram para ns? indagara o
criado, a seguir.
- No. Onde ? - perguntara a jovem curiosa. Jim avanara pelo corredor e
abrira uma porta.
Obviamente era o aposento em que ela e o pai deveriam ter jantado, pois
as velas nos candelabros estavam acesas e tambm havia uma lamparina numa
das mesas.
Era um lugar estranho, quase circular, e Dora percebera imediatamente que
devia tratar-se de uma torre; talvez a torre original do castelo.
O mais estranho era que, enquanto havia duas janelas longas e estreitas
originais, na parede norte havia uma janela ampla, na verdade ampla
demais para o tamanho da sala.
Dora observara a janela surpresa e Jim comentara sorrindo:
- Um dos criados contou-me que esta sala, que eles costumavam chamar de
"o estdio", foi feita para uma velha tia do conde Heversham que gostava
de pintar. Depois dela, um grande nmero de artistas aqui trabalharam,
enquanto retratavam os membros da famlia do Conde. Achei interessante
essa histria.
- Mas  muito interessante, mesmo! - concordara Dora. - Amanh pedirei a
algum que me conte quem eram esses artistas. Sei que papai vai ficar
curioso. Ele adora saber sobre essas coisas...
- Tenho certeza de que lhe contaro - tinha dito Jim. - Eles falam dos
quadros desta casa como se tivessem cado do cu. Parece
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que pensam que ningum mais no mundo jamais teve um quadro! Como so
ignorantes!
Dora tinha sorrido divertida. Sabia que Jim, como seu pai, estavam
decididos a mostrar quela gente que no eram pessoas sem importncia.
- Bem, esperemos para ver o que papai vai dizer sobre a coleo
Heversham. Se descobrirmos que no  to boa quanto acreditam, a ns 
que daremos boas risadas. - Dora fizera uma pausa e acrescentara,
rapidamente: - Mas, claro, s entre ns. Est bem, Jim?
- Claro, srta. Dora - concordara o criado. - No devemos cuspir no prato
em que comemos, no ?
- Estou cansada e acho que vou me recolher agora. O que faremos com estas
luzes? Voc tem alguma sugesto, Jim? - indagara a jovem.
- Vamos deix-las como esto! - dissera ele, com muita firmeza.
- No temos obrigao de apag-las. Somos hspedes, srta. Dora, e no se
esquea de que somos pessoas importantes aqui dentro, pois a conservao
da coleo do Conde depende exclusivamente de ns... Ou melhor, do patro
e da senhorita...
- , est sendo uma experincia inteiramente nova para mim replicara
Dora, pensativa e um pouco temerosa. - Boa noite, Jim, e obrigada por
tudo.
Dora encaminhara-se para o seu quarto e ficara surpresa ao encontrar uma
criada  sua espera, para ajud-la a vestir a camisola.
S quando ficara sozinha  que Dora percebera que seu quarto era to
antigo quanto o estdio.
As paredes eram muito grossas e o forro era suportado por vigas
igualmente grossas e pesadas.
Era um quarto confortvel, com um tapete grosso, cortinas de veludo e uma
cama larga coberta por uma colcha drapeada.
De repente, Dora estremeceu sem saber bem o porqu. Estavam na parte mais
antiga do castelo... O clima daquele lugar era muito diferente dos
aposentos do andar superior.
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- Estou usando muito minha imaginao - pensara enquanto se deitava.
Devido  tenso dos ltimos dias e  preocupao pela sade de seu pai,
Dora adormecera imediatamente.
Vendo a luz que atravessava os cantos das cortinas, Dora se deu conta de
que tinha dormido profundamente, a noite toda.
Era como voltar de muito longe e perceber lentamente onde estava e o que
tinha acontecido.
De repente, inclinando a cabea, lembrou-se de que, no momento, no tinha
preocupao com dinheiro.
Se fosse bastante esperta e conseguisse evitar que seu pai percebesse o
que se passava, quando fossem embora do castelo do conde de Haversham,
no precisariam mais vender um nico quadro da coleo da famlia e
poderiam viver com o que seu pai tivesse ganho trabalhando.
- Ele no pode saber - pensou ela, esperando conseguir convencer o Conde
a no mencionar nada a seu pai.
Seria muito embaraoso pedir ao Conde para dar-lhe o dinheiro. Por outro
lado, no tinha a mnima importncia o que ele poderia pensar. Precisava
daquele dinheiro para manter seu pai vivo e com sade.
Sem tocar a campainha para chamar a criada, Dora levantou-se e abriu o
cortinado. Que vista maravilhosa! No reparara, no dia anterior, no
esplendor dos jardins que circundavam o castelo e do bosque que ficava
prximo a ele.
-  lindo! Que lugar mais encantador! - pensou Dora, extasiada.
Continuava olhando com prazer para o trecho do jardim que ficava logo
abaixo de sua janela, quando algum bateu  porta. Era a criada, que
entrou em seguida trazendo ch, pezinhos recm-sados do forno e
biscoitos.
- O dia est muito quente, senhorita - disse a criada com o
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sotaque caracterstico da regio. - Acho melhor no acender a lareira,
mas se a senhorita quiser...
No, muito obrigada. Est muito quente, mesmo - replicou
Dora. Em seguida, perguntou, cheia de curiosidade: - Todos costumam
acender a lareira, logo que acordam de manh?  um costume aqui do
castelo?
- Oh, sim, senhorita.  a primeira coisa que fao ao acordar as pessoas.
Esta parte do castelo  muito fria... Eu diria mesmo... gelada...
-  verdade. Esta parte do castelo parece ser muito antiga reparou Dora,
examinando as paredes do quarto com ateno.
- E tenebrosa, se a senhorita quer saber o que eu realmente penso
- disse a criada rapidamente, olhando para os lados, como se temesse
alguma coisa.
- Voc por acaso est querendo insinuar que h fantasmas por aqui? -
perguntou Dora sorrindo, ao perceber os olhos temerosos da moa.
- Sim, senhorita...
De repente a criada calou-se, como se estivesse falando demais e, depois
de alguns instantes, mudou completamente de assunto:
- Se a senhorita me disser o que vai vestir, eu poderia ajud-la.
- Estou muito mais interessada em saber o que voc ia falar sobre os
fantasmas e as outras coisas que tornam essa parte do castelo de
Heversham to "tenebrosa" - disse Dora, ainda sorrindo.
A criada olhou para os lados novamente, como se estivesse com medo de que
algum ouvisse o que iria falar. Depois disse:
- Se a sra. Kingdon, a governanta, souber que estou falando sobre isso,
vou me dar muito mal. A senhorita promete, por favor, que no contar a
ningum o que vou lhe dizer? Nem mesmo a seu pai?
- Claro que no direi nada a ningum - respondeu Dora, j bastante
curiosa com tantos segredos. - Na minha casa, que tambm
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 muito velha, dizem que h fantasmas. Eles, porm, devem ser muito
tmidos, pois at hoje nunca os vi, em nenhum lugar.
- Espero que os daqui tambm no a incomodem, senhorita retrucou a
criada. - Agora poderia me dizer que roupa pretende vestir?
Dora sorriu. A moa mais uma vez mudara de assunto, talvez arrependida de
t-lo comeado. Sabia que no ficaria conhecendo os segredos sobre os
fantasmas daquele castelo, to cedo. De que espcie seriam eles? Talvez
um dia viesse a saber...
Assim que ficou pronta, Dora foi ver seu pai. O velho Alexander j estava
comeando a tomar o caf da manh na cama.
- Estou ficando velho e senil, minha filha - disse ele, assim que a viu
entrar. - Antigamente podia cavalgar dois dias e duas noites sem parar...
Hoje, entretanto, um simples trajeto de carruagem me deixa assim, neste
estado lastimvel...
- A viagem foi muito demorada e cansativa, papai - falou Dora gentil e
ternamente. - E o senhor estava em muito boa forma ontem  noite. Pelo
jeito como falou com o Conde...
- Acho que mostrei a todos deste castelo que um Colwyn de Mountsorrel
deve ser tratado com muito respeito! - declarou Alexander, cheio de
orgulho.
- Claro que mostrou, papai, e eu fiquei muito orgulhosa do senhor!
- Pensar que o conde Kimball de Heversham nunca ouviu falar da nossa
coleo... Que vergonha para ele! - falou Alexander, demonstrando
indignao por aquele fato.
Jim entrou na conversa:
- Eles estavam dizendo, l embaixo, que o Conde herdou a coleo apenas
no ano passado. Ele viveu fora da Inglaterra por muito tempo, por no se
dar muito bem com o pai dele, o antigo conde de Heversham.
- Ento deve ser por isso que ele nunca ouviu falar da nossa coleo. Se
passou muito tempo fora da Inglaterra... - Alexander suspirou
profundamente e depois disse, com a voz um pouco cansada:
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- Acho que vou ser obrigado a instruir esse Conde a respeito das grandes
colees da Inglaterra...
Tenho certeza de que o senhor conseguir - disse Dora, sorrindo.
Alexander voltou a tomar o caf da manh e Dora ficou feliz, ao ver que
seu pai parecia estar bem-disposto e com excelente apetite.
Acho que vou terminar de tomar meu caf da manh l embaixo
anunciou Dora. - E o senhor no deve se levantar hoje, est bem,
papai?
- vou pensar no assunto, filhinha - disse Alexander.
Dora saiu do quarto e desceu as escadas rapidamente, como se estivesse
ansiosa para ver algum...
O caf da manh est sendo servido na sala de estar, senhorita
Colwyn - disse-lhe o mordomo respeitosamente, quando chegou ao grande
hal.
Dora dirigiu-se at a sala, onde s estavam dois convidados, que se
levantaram assim que a -viram entrar.
- bom dia, srta. Colwyn! - disse um deles. - Vejo que acorda cedo, o que
no  muito comum nesta casa!
Dora sentou-se e perguntou ansiosa:
- Est dizendo que no esperava... que eu... descesse para o caf da
manh?
- No, claro que no! - replicou rapaz.
A jovem lembrou-se de que aquele rapaz era o mesmo com quem conversara
durante o jantar da noite anterior, e de que algum o chamara de lan.
Enquanto Dora se servia de uma omelete, o jovem continuou:
- Em casa, minha me nunca permite que se fique muito tempo na cama a no
ser em caso de doena. Mas Sheelah nunca aparece antes do meio-dia. No 
verdade, Rodney?
Rodney, o outro rapaz, respondeu:
- Acho que ela passa metade da manh se maquilando. No sei Por que
Kimball no diz para ela que no precisa se arrumar tanto quando est no
campo.
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- Acho que ele no teria coragem para tanto! - retrucou lan, rindo.
Dora achou que aquele tipo de conversa no era muito respeitoso para com
Sheelah. Entretanto, chegou  concluso de que no devia ficar preocupada
com a reputao de Sheelah. Afinal, tinha sido muito maltratada por ela
na noite anterior!
Gostaria de nunca mais ter que encontrar aquela mulher!
Talvez ela tivesse ficado irritada por Dora ter perguntado sobre seu
marido. Mas era realmente muito estranho ver uma mulher desacompanhada,
sem o marido ou uma velha tia ou amiga! Embora sendo pobres, a me de
Dora sempre fizera questo de ensinar  filha todas as regras de um bom
comportamento social.
- Uma das regras principais para a reputao de uma mulher dizia ela - 
nunca ir desacompanhada a lugar algum. Se o marido no puder ir, a mulher
deve pedir a uma senhora amiga que a acompanhe.
"Ento por que Sheelah est aqui sozinha?", pensou Dora sem entender.
"Afinal, aqui s h homens! "
- Est to sria! - observou lan. - Pensando em alguma-coisa triste,
srta. Colwyn?
Dora sorriu antes de responder:
- Absolutamente. Estava pensando em como o jardim do castelo  bonito. S
de v-lo me deu vontade de danar e cantar!
- Na sua idade isso seria muito natural - retrucou lan.
-  lgico - concordou Rodney. -  uma pena que Kimball no costume dar
bailes aqui no castelo.
- Este lugar parece sado de um conto de fadas - comentou Dora, num tom
de voz sonhador.
- E,  lgico, Kimball seria o prncipe encantado, no  mesmo?
- retrucou lan.
Ele mal terminara de falar, quando a porta se abriu e o Conde apareceu:
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Quem est falando de mim to maldosamente? - perguntou ele.
Kimball entrou na sala e Dora fez meno de levantar.
Por favor, no se levantem - pediu ele, sentando-se a seu lado.
Pensei que voc fosse cavalgar comigo esta manh, lan.
Para ser sincero, Kimball, os vinhos que voc serviu ontem
estavam deliciosos demais - respondeu lan, ironicamente.
- Bem, Basil foi comigo - continuou o Conde. - Infelizmente, aquele
ferimento que ele sofreu no plo comeou a incomodar e ele achou melhor
voltar para a cama. Creio que dentro de algumas horas estar bem.
- Aquele ferimento deve estar enchendo a pacincia de Basil, coitado -
disse Rodney.
- O que esto pensando em fazer hoje? - indagou lan.
- Essa pergunta eu  que deveria fazer, no , lan? - retrucou Kimball. -
Portanto, o que voc quer fazer?
- Acho que vou ler os jornais no jardim - disse lan.
- timo - disse Kimball. - E voc, Rodney?
- Tenho que colocar algumas cartas no correio - informou o jovem. -
Depois, se voc permitir, gostaria de cavalgar um pouco. Bem que eu
gostaria de ter ido com voc, mas minha cabea doa muito por causa do
vinho de ontem  noite!
- Voc j reparou em como o vinho que voc anda servindo est deixando
seus convidados, Kimball? - brincou lan.
- , acho que vou trocar de adega.
- Se voc fizer isso, voltarei imediatamente para Londres! atalhou
Rodney, em tom de brincadeira.
Todos riram divertidos, menos Dora. Por que achavam to engraado beber
demasiadamente  noite e se sentir mal na manh seguinte? Aquilo lhe
parecia uma grande tolice!
- bom, agora s falta a srta. Colwyn - disse Kimball. - O que pretende
fazer esta manh?
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- Papai est um pouco cansado hoje - comeou Dora. - Se o senhor
permitir, gostaria de ver seus quadros, assim poderei dizer a papai quais
as obras que precisam ser restauradas mais depressa.
- Eu gostaria de mostrar-lhe quais so as obras que mais me interessam e
nas quais gostaria que seu pai trabalhasse - explicou Kimball.
Por um momento, Dora pensou que o Conde fosse dizer que seu pai s
restauraria algumas poucas obras da coleo. No entanto, como se tivesse
percebido a aflio da moa, o rapaz mudou de assunto.
Quando todos terminaram o caf da manh, Kimball dirigiu-se a Dora:
- Quer vir comigo, srta. Colwyn? - convidou ele. - Gostaria de mostrar-
lhe uma coisa na biblioteca.
Os dois rapazes caminharam em outra direo e Dora seguiu Kimball por um
corredor, at a biblioteca.
Era uma sala muito ampla, com todas as paredes cobertas por livros, do
cho at o teto, com exceo de uma, onde estava colocado um Van Dick.
Assim que Dora o viu, deixou escapar uma exclamao e deu um passo para
trs, a fim de admir-lo melhor.
Aquele era, com certeza, o retrato de um ancestral do Conde. A composio
era muito semelhante  do retrato que o artista pintara do antepassado de
Dora.
O homem estava parado  frente do castelo, que era bem diferente naquela
poca. A cabea de seu cavalo aparecia no quadro, assim como dois ces
que olhavam para o dono com admirao.
Era um quadro magnfico! Como sempre Van Dyck soubera realar os mnimos
detalhes com talento e percia.
-  lindo! Maravilhoso! - exclamou Dora. - Mas tenho certeza de que papai
vai dizer que o quadro est precisando de um bom reparo. Principalmente
nos ces.
- Estava certo de que iria dizer isso - respondeu Kimball. Agora que
estamos a ss, podemos ter aquela conversa que voc pediu,
- S-sim...  claro - disse a jovem.
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Por sentia-se, de repente, envergonhada com o que teria que dizer.
Entretanto, tinha que prosseguir, pois se tratava de tentar assegurar a
sobrevivncia de seu pai. Suspirou e comeou a falar:
Sr. Conde, sei que... mandou que meu pai viesse at aqui...
porque deseja que ele... restaure... seus quadros.
 verdade - concordou o rapaz.
E o senhor tem inteno de pag-lo por esses servios?
Naturalmente! - exclamou o Conde, sem compreender.
Por um instante Dora sentiu que no conseguiria continuar aquela
conversa. Depois, vendo que Kimball a observava atentamente, foi obrigada
a dizer:

- Quando sua carta chegou, papai no estava muito bem de sade. Eu a
abri, mas quando falei com ele sobre seu... convite... no lhe mostrei a
carta.
- Por que no? - indagou o rapaz.
- Porque... at hoje papai nunca aceitou receber um nico centavo pelas
restauraes que fez para seus amigos! - explicou Dora.
- No estou entendendo onde quer chegar, srta. Colwyn. Disseram-me que
seu pai  o melhor restaurador do pas e meu secretrio disse-me que ele
concordara em vir para c restaurar os quadros que herdei recentemente.
- Acho que... infelizmente no estou me explicando... bem disse Dora. -
Estamos muito pobres e precisamos... desesperadamente de... dinheiro. Eu
ficaria muito grata, se o senhor... pagasse a papai por qualquer coisa
que ele fizesse enquanto estivesse por aqui... Mas, por favor, entregue o
dinheiro para... mim e nunca o deixe saber, que ele  outra coisa aqui,
alm de... seu hspede.
Fez-se um silncio pesado na biblioteca. Depois de alguns momentos,
Kimball disse:
-  Acho que estou comeando a entender. O que est querendo dizer  que
seu pai precisa de dinheiro, mas que  orgulhoso demais Para aceit-lo.
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-  isso mesmo - concordou Dora. - Se papai desconfiar de que ser pago
por seus servios, no s se recusar a receber o dinheiro... como
tambm ir embora imediatamente!
- Ento vamos sentar e conversar sobre isso - sugeriu Kimball, Ele
percebera que Dora estava tensa e trmula. A jovem receava
parecer desleal para com seu pai e, ao mesmo tempo, via-se obrigada a
agir daquela maneira. Sentou-se numa poltrona de couro de frente para o
quadro e comeou a se acalmar, enquanto admirava aquela linda obra de
arte.
Depois de alguns instantes, Kimball tornou a falar:
- O que no entendo, srta. Colvvyn,  que me disse que seu pai tinha um
Van Dyck em casa. Alm do mais, ele mesmo referiu-se  coleo de vocs
como sendo to boa ou melhor do que a minha! Como pode ser, j que vocs
so to pobres?
- Ora, senhor Conde, nossos quadros foram herdados! - disse Dora um tanto
indignada. Afinal de contas, no era to difcil de entender!
-  claro! Como no pensei nisso? - exclamou o jovem Conde. Enquanto
Kimball falava, Dora chegou  concluso de que ele nunca
poderia imaginar que um restaurador pudesse herdar uma coleo de arte de
valor inestimvel. Aquele pensamento deixou Dora muito orgulhosa de sua
famlia. com um sorriso cheio de imponncia, ela esclareceu:
- Os Colwyn moram em Mountsorrel desde os tempos da rainha Elizabeth I,
senhor Conde. Nossa casa no  to grande quanto a sua, mas nossa coleo
 de tal importncia, que  sempre citada nos livros de Histria da Arte.
- Desculpe, srta. Colwyn - disse Kimball. - Acho que eu devia ter me
informado melhor sobre seu pai. Repreenderei meu secretario pela forma
como escreveu aquela carta. Ele deveria ter sido mais atencioso, pois,
afinal, seu pai  um homem que merece todo o respeito dos colecionadores.
- Notando que Dora ficara mais calma com suas palavras, o rapaz
continuou: - Agora me diga exatamente o que quer que eu faa.
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Se o senhor quiser... realmente a ajuda de papai, simplesmente pea
conselhos sobre seus quadros - disse Dora. - Se ele se oferecer para
restaur-los... agradea efusivamente... como se ele estivesse fazendo um
favor, pois  isso... que ele vai pensar que estar acontecendo!
Pode deixar que farei exatamente o que est me pedindo e pagarei pelo
trabalho de seu pai  senhorita.
- Muito obrigada, senhor. Odeio agir dessa forma e meu pai ficaria muito
zangado se soubesse, mas no tenho outra sada.
- Vocs esto mesmo muito pobres? - perguntou Kimball.
- Se eu responder a essa pergunta o senhor ficar com pena de ns e eu
ficaria to humilhada que teria que ir embora do castelo respondeu Dora,
percebendo que Kimball observava atentamente seu vestido fora de moda.
- Estou vendo que  muito difcil lidar com o seu orgulho, srta. Colwyn.
- Meu orgulho  grande... mas infelizmente no me d nenhum rendimento...
Kimball riu divertido.
- Agora est sendo mais humana - brincou ele. - Juro que cheguei a ficar
preocupado.
- Obrigada por ser to... compreensivo - respondeu Dora. E posso garantir
que lhe disseram a verdade quando falaram que papai  o melhor
restaurador da Inglaterra! Talvez um dia o senhor chegue a conhecer...
nossa coleo.
- Espero ser convidado a visit-los - respondeu o rapaz.
Assim que Kimball disse aquelas palavras, Dora o imaginou chegando  sua
casa semi-arruinada e comendo as pobres refeies que i eles ali comiam.
Falara sem pensar e sentia vontade de rir ao imaginar  o Conde
conhecendo sua casa e vendo o modo como viviam.
Sem querer levar adiante aquela conversa, Dora levantou-se.
 - Tenho  certeza de que estou lhe tomando tempo, senhor. Se me
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permite, darei um passeio pelo castelo, a fim de admirar sua coleo e
prometo que no aborrecerei ningum.
- A senhorita nunca faria isso - atalhou ele. - Antes de Se despedir,
porm, gostaria de lhe mostrar uma coisa.
Kimball abriu uma porta, subiu uma escada e Dora o seguiu. No andar
superior, ele abriu ainda outra porta e entraram num aposento, que Dora
logo percebeu tratar-se da sala de estar particular de Kimball. Aquela
sala s poderia pertencer a um homem, por causa da grande quantidade de
quadros de cavalos pintados por Stubbs, que ali havia.
E sobre a lareira havia um outro Van Dyck.
Era uma rplica perfeita do quadro que havia em seu quarto, e a Virgem
parecia-se muito com a me de Dora e, consequentemente, com ela prpria.
Como era possvel aquilo? Qual dos quadros era o original? O da sua
coleo ou aquele, do Conde?
Dora aproximou-se da tela, tentando captar alguma falha na obra que
pudesse denunciar que aquela pintura no passava de uma cpia, Mas era
impossvel! Tudo ali parecia ter sido pintado pelas mos geniais de Van
Dyck!
- E ento? Qual o seu veredicto? - perguntou Kimball.
- ... idntico... ao nosso!
- Pelo tom de sua voz estou percebendo que esse quadro  muito especial
para a senhorita.
- Meu pai... sempre achou que a Virgem... se parecia com minha me...
- E com a senhorita tambm! Dora fitou-o surpresa e perguntou:
- O senhor tambm acha?
-  claro! Assim que entrou na sala ontem  noite, notei a semelhana.
Dora voltou a olhar o quadro e disse em voz baixa:
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Talvez, pelo fato de eu gostar muito desse quadro, as pessoas
me achem parecida com a Virgem.
- No, srta. Colwyn. Seu rosto oval, o nariz e o mistrio de seus olhos
so iguais aos da figura representada no quadro.
Dora estremeceu, estranhamente, com o tom diferente da voz de Kimball ao
pronunciar aquelas palavras e mudou de assunto rapidamente:
- Talvez papai... fique chateado se vir esse quadro... Talvez seja melhor
no... mostr-lo a ele.
- Acha que eu passaria o resto da minha vida sem saber se o meu quadro 
original ou no, srta. Colwyn? Se esse quadro significa alguma coisa para
a senhorita, para mim tambm significa. E muito!
Dora no soube o que responder e Kimball continuou:
- Antes de seu pai ir embora, precisarei saber se esse quadro  original!
- Acho que... deve ter muitos outros quadros... para papai restaurar,
senhor Conde - murmurou Dora, um pouco receosa diante do tom de voz
spero de Kimball.
- Sim,  claro, mas este  o mais importante - replicou ele. Agora quero
lhe mostrar um Stubbs, que meu pai adorava.
Havia muitos quadros pintados por Stubbs no castelo, mas todos estavam em
timas condies, se comparados ao Poussin que ficava na sute de
Kimball.
- Papai aprecia muito o trabalho de Poussin - disse Dora. Tenho certeza
de que quando vir o estado desse quadro ele decidir restaur-lo,
imediatamente. Acho que seria bom lev-lo para o estdio hoje mesmo.
- Pelo jeito, parece que quer que seu pai comece a trabalhar logo, srta.
Colwyn - comentou Kimball, sorrindo.
-  que desejo ficar no castelo - confessou Dora. - Ainda tenho medo de
que tudo isso seja apenas um sonho ou, ento, que Papai fique logo com
saudades de casa e queira ir embora, antes que
eu tenha tempo de ver todos os tesouros que aqui esto guardados!
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- Antes que ele queira ir embora, eu levarei todos os meus quadros at o
estdio. - Depois acrescentou: - Fique sossegada. Prometo que farei com
que seu pai se proponha a me ajudar com os quadros...
- Obrigada. Muito obrigada - disse Dora, impulsivamente. - O senhor 
muito gentil e atencioso.
Os olhos do rapaz encontraram os da jovem, que, por sua vez, achou
difcil desviar os seus.
Passaram duas horas inteiras admirando a coleo de pinturas e
finalmente, Kimball disse:
- J viu os cavalos de Stubbs, agora venha conhecer os meus animais.
- Estou muito curiosa para v-los - disse a jovem.
- E para cavalgar tambm? - indagou o Conde.
- Bem que eu gostaria, mas tenho medo de envergonh-lo... - murmurou
Dora.
- Por qu?
- Porque a roupa de amazona que trouxe est muito fora de moda
- confessou ela.
- Acho que isso no tem a menor importncia - replicou Kimball.
- Mas, se estiver preocupada com o que os outros possam pensar a respeito
de seu traje, poderamos cavalgar s ns dois.
- Poderamos mesmo? - perguntou Dora, surpresa.
- Costumo sair para cavalgar todos os dias, um pouco antes do caf da
manh - declarou o jovem Conde.
- E eu poderia acompanh-lo? - inquiriu a moa.
- Meus hspedes so livres para fazerem o que tm vontade esclareceu
Kimball.
- Ento eu poderia acompanh-lo amanh?
- Se estiver pronta s sete e meia...
- Estarei pronta muito antes da hora - disse Dora, cheia de felicidade.
56
Sendo assim, tambm procurarei no me atrasar - prometeu
Kimball, sorrindo.
Vai ser maravilhoso. S espero...
Dora interrompeu a frase, ao perceber que no seria elegante dizer o que
estava pensando. Quase cometera uma grave indiscrio, mas, na verdade,
esperava que lady Sheelah no os acompanhasse. com certeza, ela
consideraria muita petulncia da parte da filha de um simples restaurador
de obras de arte sair para cavalgar com o Conde!
Em seguida, achou que seria bobagem deixar que a simples presena de
Sheelah a perturbasse tanto.
"O que est acontecendo comigo", pensou Dora, "s acontecer uma vez na
vida! Preciso ter boas lembranas de minha juventude, para quando ficar
velha! Alm disso, no tenho medo de lady Sheelah! "
57

CAPITULO IV

Dora examinou o quadro que representava Apolo e Dafne, que havia sido
levado ao estdio, e concluiu que este necessitava de um bom trabalho de
restaurao.
A pintura fora muito negligenciada, e ela tinha certeza de que seriam
necessrios dias, talvez semanas, para fazer com que aquela magnfica
obra de arte voltasse a ter as mesmas cores e a mesma perfeio da poca
em que havia sido criada.
Quando Dora subiu at o andar superior, logo depois do almoo, e passou
pelo quarto de Alexander, viu que ele estava dormindo tranquilamente.
Resolveu no descer novamente, preferindo ir at o estdio para ler por
algumas horas. Entretanto, ao ver o quadro, percebeu que haveria ali
muito trabalho e que seria conveniente inici-lo o mais depressa
possvel.
O almoo fora muito desagradvel, pois Sheelah, obviamente, no estava
nada satisfeita com a presena de Dora e demonstrara essa insatisfao
ignorando-a completamente ou ento fitando-a de maneira hostil e pouco
educada.
Dora notou que Sheelah no fora to rude com ela como na noite anterior,
apenas porque Kimball estava presente. com certeza, fazia questo de no
aborrecer o Conde e, pelo contrrio, a todo momento fazia o possvel para
chamar-lhe a ateno.
Como na noite precedente, Sheelah usava vrias jias lindssimas. Devia
estar muito orgulhosa de si mesma, pois todos os homens presentes s
tinham olhos para ela. Pelo jeito, porm, s um homem lhe interessava e
esse, sem dvida alguma, era o conde de Heversham.
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Essa inteno de Sheelah expressava-se claramente, no apenas pelo modo
como falava com ele, mas tambm pela maneira como o tocava com seus dedos
finos e delicados.
Alm disso, fazia o possvel para manter-se prxima dele, o mximo de
tempo possvel. Sheelah agia de uma maneira to imprpria que seria
impossvel no reparar.
Como se no bastasse esse comportamento repreensvel, a jovem usava
tambm um vestido exuberante demais para um simples almoo. Era um traje
verde que, mesmo sendo de um tom diferente do que usara na noite
anterior, contrastava de maneira espetacular com seus cabelos ruivos.
Desde que se haviam sentado  mesa, Sheelah parecia decidida a dominar a
conversao. No querendo contrari-la, Dora mantivera-se em silncio
durante toda a refeio.
Uma ou duas vezes teve a impresso de que Kimball a observava. Ela,
porm, no ousava erguer os olhos do prato, a no ser para admirar as
pinturas que ornamentavam a sala de almoo.
Ao trmino da refeio, aps Sheelah se ter dirigido  sala de estar,
Dora levantou-se e, antes de se retirar, disse a Kimball:
- Preciso ir ver papai.
- Mandei o Poussin para o estdio - anunciou ele.
Dora sorriu. Ia dizer novamente o quanto gostara daquele quadro, mas
resolveu calar-se, pois Sheelah poderia ouvi-la. Subiu as escadas
apressadamente, como que fugindo de alguma ameaa.
J no estdio, observando o quadro com ateno, Dora pensou:
- Se eu fosse retirando o verniz velho da tela, adiantaria o trabalho
Para papai.
Como se tivesse previsto que a jovem iria iniciar o trabalho, Jim deixara
sobre a mesa todos os instrumentos de que ela necessitava para comear.
Havia esptulas, pincis, tintas, enfim todo o tipo de material que seu
pai utilizava. Como ele costumava dizer:
- As pinturas so como doentes. Todas precisam de um tratamento
diferenciado e individual, para ficarem boas novamente.
59
Os aventais que ela e seu pai usavam para trabalhar estavam sobre uma
cadeira. Tinham poucas roupas e no podiam estrag-las com ndoas de
verniz ou tinta.
O avental de Dora era muito velho e, um dia, tinha sido azul-escuro.
Estava agora desbotado e cheio de manchas de tinta. No entanto, o azul
mais claro realava sua pele branca e a deixava ainda mais bonita.
O quadro de Poussin tinha sido colocado sobre um dos cavaletes do
estdio, diante de uma janela que recebia a luz vinda do norte.
Dora pegou o que precisava de cima da mesa e comeou a trabalhar.
Como de costume, ficava muito concentrada no que estava fazendo, at que
de repente teve a ntida sensao de estar sendo observada.
Pensou que tudo no passasse de impresso e olhou para a porta, que
continuava fechada.
- Que sensao mais estpida! - pensou, rindo.
Entretanto, enquanto removia cuidadosamente o velho verniz que recobria o
quadro, aquela impresso tornou a assalt-la.
Emily, a criada, dissera que o estdio tambm era mal-assombrado... mas
aquele tipo de pensamento era simplesmente ridculo!
Como a impresso persistisse, Dora parou de trabalhar e olhou  sua
volta.
Tinha certeza de que as paredes circulares davam para fora do castelo, e
que apenas metade de uma parede ligava-se ao resto da casa, alm da porta
por onde entrara, que dava para o corredor.
Olhou para a lareira, que ficava na parede ligada ao Castelo. Caminhou em
direo a ela, embora aparentemente nada existisse de estranho ali.
Observou detidamente o topo da lareira, e percebeu que, nos desenhos
esculpidos no mrmore, havia frestas suficientes para que algum, do
outro aposento, pudesse observar o que se passava no estdio.
Olhou atravs destas e nada viu. com certeza, a pessoa tinha ido embora.
Perguntaria a Emily quem ocupava aquele aposento. Estava ansiosa para
decifrar aquele mistrio. Entretanto, tentou acalmar-se, lembrando-se de
que sua me costumava dizer-lhe que no convinha a uma dama ser
demasiadamente curiosa.
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Alm do mais, quem quer que a estivesse observando j no mais o fazia,
pois Dora no se sentia mais observada.
Voltou ao trabalho e procurou esquecer suas inquietantes impresses.
Afinal, por que algum ficaria vigiando seus atos? No estava fazendo
nada de errado!
Quando Jim entrou no estdio, dizendo que o velho Alexander se levantara,
Dora correu at o quarto dele, a fim de contar-lhe o que estava fazendo.
-  um Poussin muito bonito, papai. Assim que o vi, tive certeza de que o
senhor ficaria horrorizado com as condies em que ele se encontra. Pedi
ao Conde que o mandasse ao estdio, para que pudesse examin-lo mais
cuidadosamente. Espero que o senhor no se aborrea, mas j comecei a
retirar o verniz velho.
Olhava para Alexander um pouco apreensiva, mas ele lhe disse
simplesmente:
- Espero que o Conde aprecie seus cuidados e dedicao, filhinha.
Entretanto, no tenho a inteno de comear o trabalho, at ter visto
todos os quadros e resolver qual deles merece ser restaurado.
- O senhor est sendo severo demais, papai! - exclamou Dora.
-  verdade! - replicou Alexander, com seriedade. - No esquecerei to
cedo a maneira como quiseram nos tratar, ontem  noite. Se no fosse
eu...
- Acho que o senhor deveria reclamar a respeito do secretrio do Conde -
ponderou Dora. - Pelo que entendi o homem confundiu as instrues do sr.
Heversham.
A jovem notou que seu pai ainda no se acalmara. Sentia-se insultado pelo
fato de Kimball nada saber a respeito da coleo Mountsorrel e por ter
pensado ser ele um simples restaurador.
Temendo que o orgulho de seu pai ainda lhes trouxesse complicaes, Dora
disse:
- Como o senhor no frequenta muito a sociedade, s vezes as Pessoas se
esquecem de que  um aristocrata, papai.
- Obrigado, filhinha - agradeceu Alexander, num tom de voz fria.-  Como
j me sinto melhor, descerei hoje para o jantar.
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- Tem certeza de que est realmente se sentindo bem? - indagou a jovem.
- Meu cansao passou! - replicou Alexander, animado. - Para falar a
verdade, estou pronto para qualquer coisa, inclusive para conversar com
aquela linda sereia de cabelos ruivos.
- O senhor no vai querer flertar com ela, no , papai? - perguntou
Dora, surpresa.
- Aquela mulher flerta com qualquer um! - replicou ele.
- O senhor sabe alguma coisa sobre ela? - inquiriu Dora, com dificuldade,
pois a cada minuto que passava achava Sheelah mais antiptica.
- Ela me disse que  viva e filha do conde de Frome - contou Alexander.
- Se no me falha a memria, ele faliu h alguns anos e tudo o que
possua foi vendido. Lembro-me de que Lewenstein ficou com uma poro de
quadros dele.
Dora ficou perplexa. Se o pai de Sheelah estava arruinado, como poderia
ela possuir tantas jias maravilhosas? "Talvez o marido dela fosse muito
rico", pensou.
Em seguida, achou melhor tomar o ch com seu pai, em lugar de descer e
encontrar os outros convidados. No queria ver Sheelah e ter que tolerar
o modo como a moa olhava para o Conde.
Dora tinha certeza de que sua me no aprovaria os modos daquela mulher.
Agora que estavam sob o reinado da rainha Victoria, o comportamento da
sociedade era muito mais reservado do que no tempo do seu tio, o rei
George.
Durante os anos do reinado de George IV, a Inglaterra passara por um
perodo de grande depravao social, que nem mesmo o rei William e sua
esposa Adelaide haviam conseguido eliminar. S quando a rainha Victoria
subiu ao trono  que tudo comeou a mudar.
Certa vez, Dora perguntara  sua me:
- Por que o rei George era to depravado, mame?
A sra. Colwyn hesitara por um instante, antes de responder. Depois,
dissera, escolhendo as palavras, cuidadosamente:
- O rei George no era exatamente depravado, minha filha. Ele
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apenas tinha um modo de vida um tanto desregrado e,  claro, muitos
elementos da sociedade imitavam sua maneira de ser. Ele foi um pssimo
exemplo para toda a Inglaterra.
Mas o que eles faziam, mame? - indagara Dora.
Sua me preferira fingir no ter ouvido aquela pergunta e mudara de
assunto. Como seu pai fosse mais explcito e os jornais no fizessem
segredo a respeito dessas coisas, Dora acabara por saber que entre as
amantes do rei figuravam a sra. Fitzherbert, lady Jersey, lady Hertford e
a marquesa de Conyingham.
Como se isso no bastasse, comentava-se que William IV tivera dez filhos
ilegtimos com a atriz sra. Jordan, antes de casar-se com sua jovem e
honesta esposa alem.
Ao voltar para o estdio, tendo aquelas lembranas na mente, Dora olhara
para a cena de Apolo e Dafne, pintada por Poussin, e subitamente
compreendera, por fim, a verdadeira posio que Sheelah ocupava naquele
castelo.
"Como pude ser to estpida a ponto de perguntar sobre o marido dela?",
pensou Dora. " claro! No existe a menor dvida de que ela  amante do
Conde! "
Por mais que detestasse a ideia, Dora teve que admitir que s o fato de
Sheelah e Kimball serem amantes poderia explicar a presena da moa no
castelo, sem nenhuma acompanhante.
Sim, s podia ser isso! Os dois eram amantes! Essa era a razo por que
Sheelah se portava como se fosse dona do castelo!
Do contrrio, o que explicaria o fato de no haver outra mulher entre os
convidados de Kimball? Se estivesse errada, por que ento Sheelah fazia
questo de se mostrar to amorosa e possessiva em relao a ele?
Por mais evidente que fosse a situao entre os dois, Dora sentiu muita
relutncia em aceit-la. Aquilo a deixava cheia de uma infinita tristeza,
que no sabia ao certo como explicar. Kimball e Sheelah... amantes...
Dora tentou concentrar-se no trabalho. Porm, por mais que se esforasse,
a conscincia daquela revelao no a deixava sossegar.
63
Subitamente, sem ao menos tirar o avental azul, Dora saiu do estdio e
percorreu o corredor, sem saber onde estava indo. Queria apenas escapar
de si mesma e dos pensamentos que a perturbavam.
Antes de chegar  escadaria principal, viu uma escada menor, exatamente
como a que havia no outro lado da casa, por onde o Conde a levara at sua
sute.
Desceu, tentando imaginar onde chegaria, e foi com alvio que deparou com
uma saleta muito bem decorada, que dava para o jardim.
Abriu uma porta com cuidado e viu-se diante da parte do jardim que havia
admirado atravs da janela de seu quarto.
Ali, o jardim seguia o estilo francs, com seus canteiros bem ordenados e
cheio de flores graciosas e delicadas.
Havia uma linda fonte no centro dos canteiros, onde nadavam peixinhos de
todas as cores, sob lindos lrios aquticos, que deviam ser de uma
espcie rara, pois eram cor-de-rosa e no brancos.
Dora ficou admirando os peixes e os lrios por um longo tempo. Apreciava,
enlevada, o maravilhoso efeito luminoso que os raios de sol criavam, ao
se refletirem sobre o espelho de gua da fonte.
"Isso tudo faz parte de um cenrio de contos de fadas", pensou Dora,
completamente encantada. "O castelo, esse lindo jardim, o Conde... "
Como se tivesse sido chamado pelos pensamentos da jovem, Kimball apareceu
e comeou a caminhar em sua direo. A jovem ficou imvel onde estava,
como se estivesse esperando por aquele encontro solitrio, na parte mais
esquecida do jardim do castelo.
Kimball parou a seu lado e ps-se, tambm, a contemplar as guas da
fonte.
- Tinha certeza de que mais cedo ou mais tarde voc acabaria encontrando
esse recanto do jardim - disse ele, aps alguns momentos de silncio. -
Era meu lugar preferido, quando eu era menino. Se esses peixes no so os
mesmos que coloquei aqui ao completar dezessete anos, estou certo de que
so seus filhos e netos,
- Os lrios... os lrios so... to lindos! - murmurou Dora.
- Foi minha me quem os colocou aqui - contou ele,  sorrindo,
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tristemente, como se uma lembrana longnqua o invadisse. - Eu prometi a
mim mesmo que um dia pediria a algum que os pintasse.
Kimball fez uma pausa, deu um longo suspiro e continuou: Agora eu sei
quem deveria posar para o quadro, segurando os lrios. Sei tambm que
essa pessoa deveria estar usando uma roupa azul, igual a esse seu
avental.
Dora tinha esquecido completamente de que ainda estava com o velho
avental. Sorriu, um tanto embaraada, e explicou para Kimball:
- Esse  meu uniforme de trabalho e, j que o estou usando, acho que o
senhor pode imaginar o que eu estava fazendo.
-  claro - disse Kimball. - Fico muito grato pelo seu interesse, mas o
que seu pai vai dizer?
- Ele ainda no viu o quadro, mas como est se sentindo melhor, j pensa
em descer para o jantar desta noite. - Dora fez uma pausa e, depois de um
instante, continuou com esforo: - Acho que o senhor ter que ser...
muito cuidadoso... ao falar com papai sobre sua coleo... No demonstre
que espera que ele restaure os quadros. Sei que ele ir... se oferecer
para ajud-lo.
- Pensei que voc confiasse em mim - retrucou o Conde.
- E confio - confirmou Dora, apressadamente. - Mas  que papai...
-  muito orgulhoso - completou Kimball, voltando a sorrir.
- Sim,  verdade, e para ser sincera ainda est um pouco chateado com o
incidente de nossa... chegada.
- Ser que terei que me desculpar novamente pela minha ignorncia? Por
no saber que voc e seu pai so aristocratas e que deveriam ser
tratados como tal? - perguntou Kimball, com um meio sorriso nos lbios.
- No, eu entendi perfeitamente tudo o que aconteceu - afirmou Dora, com
sinceridade. - Mas, por favor... ajude-me com papai. Sei que passar uma
temporada aqui no castelo... far muito bem  sade dele. Tenho certeza
de que ele poder at remoar!
- Voc sabe que pode contar comigo no que for preciso - disse
O jovem Conde.
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O tom de voz de Kimball fora diferente do que tinha usado at aquele
momento e Dora fitou-o surpresa. O rapaz, por sua vez, encarou-a com
estranha intensidade.
Ficaram olhando-se longamente, at que Kimball voltou a falar no mesmo
tom de voz profundo:
- Fiquei esperando por voc minha vida inteira. O quadro que agora est
na minha saleta particular  uma das primeiras lembranas que tenho, de
quando era pequeno e ele ainda estava no quarto de minha me.
Dora soltou uma exclamao surpresa e disse, cheia de emoo:
- O meu tambm... esteve no quarto de... minha me, at a morte dela...
depois foi para o meu quarto!
- Como voc pode ser to parecida com a Virgem? - perguntou Kimball, aps
um longo momento de silncio. - Ser possvel que alguma antepassada sua
tenha posado para o artista?
Dora sorriu divertida com aquela dvida e comentou:
- Sendo assim, voc ter que concordar que o quadro que est na coleo
de minha famlia  o autntico Van Dyck!
- Neste momento s uma coisa  completamente verdadeira para mim: voc!
Kimball continuava usando o mesmo tom de voz que deixava a jovem
desnorteada. Seu corao batia descompassadamente e tinha certeza de que
seu rosto estava rubro.
Dora voltou a contemplar os peixinhos, sem dizer nada. Depois de alguns
instantes, Kimball murmurou:
- Voc  linda, Dora. Mas  muito mais do que isso. H alguma coisa que
me faz sentir como se voc fosse minha, como os quadros so meus, mas no
ao nvel de simples posse.  como se voc fizesse parte do meu sangue, do
ar que respiro.
Dora teve a sensao de que todos os raios de sol a estavam iluminando.
De repente, porm, uma nuvem negra obscureceu o sol, ao lembrar-se de
Sheelah. Ficou tensa e, involuntariamente, ergueu o queixo, com orgulho.
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Como se soubesse exatamente o que Dora sentia, Kimball desculpou-se:
Sei que no tenho o direito de falar com voc dessa maneira.
Sem dizer mais nada, o Conde levantou-se e se afastou dali.
Sem olhar para trs, Dora ficou ouvindo o rumor dos passos do rapaz, at
se tornarem inaudveis. Sentia-se presa de sensaes to estranhas, que
no conseguia entender. Sem a presena dele, tudo parecia feio e triste!
Onde estaria agora a alegria, a beleza?
Teve vontade de correr atrs de Kimball e pedir-lhe que explicasse o que
estava acontecendo em seu corao. Desejava olhar em seus olhos e
certificar-se de que Kimball tambm sentia o mesmo...
De repente, um pensamento horrvel a invadiu. Talvez Kimball estivesse
comprometido com Sheelah e tivesse a inteno de casar-se com ela.
Isso explicaria tudo: o fato de Sheelah estar no castelo, sem
acompanhante o modo como se portava... a maneira como tratava os
convidados do Conde, como se todos lhe devessem render homenagens
"Como  possvel que ele queira casar-se com uma pessoa to rude, to
vulgar?", pensou.
Sentiu-se muito jovem e ingnua, perdida num mundo adulto, cheio de
astcia e perversidade. Um mundo que no conseguia entender e onde jamais
pretendia entrar.
Porm, mais do que tudo, o que perturbava profundamente o corao de Dora
eram os sentimentos confusos que a envolviam.
Perdido o encantamento daquele recanto do jardim, ela voltou para dentro
do castelo, dirigindo-se novamente para o andar superior.
Abriu cuidadosamente o quarto de seu pai e viu que ele ainda dormia
profundamente.
Foi ento para o estdio, onde o quadro a esperava. Entretanto, sentia-se
muito triste para recomear o trabalho.
Tirou o avental, tentando no pensar mais no que Kimball lhe havia dito,
que gostaria de v-la retratada naquele mesmo tom de azul. Caminhou at a
estante de livros, do outro lado do aposento.
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Viu que todos os volumes tratavam de assuntos ligados s artes. Muitos
eram sobre os museus estrangeiros e outros ainda sobre a vida de grandes
artistas.
Abrindo um deles ao acaso, viu que havia pertencido a uma mulher de nome
Charlote Hever e achou que devia tratar-se da tia de Kimball, que gostava
de pintar.
Achou que seria um bom passatempo l-lo e foi sentar-se numa poltrona
perto da janela. Virava as pginas com gestos automticos, olhando as
ilustraes sem prestar ateno, pois certas palavras do Conde no lhe
saam da cabea:
"... H alguma coisa que me faz sentir como se voc fosse minha, como os
quadros so meus, mas no ao nvel de simples posse.  como se voc
fizesse parte do meu sangue, do ar que respiro. "
"Como ele se atreveu a dizer que me possua?", pensou Dora.
Entretanto, uma voz bem no fundo de seu corao dizia que aquilo tudo era
verdade. Tinha certeza de que pertencia a Kimball desde o primeiro
momento em que o vira na sala, com os convidados. Por isso tinha ficado
envergonhada e trmula ao cumpriment-lo.
O quadro de Van Dyck, que retratava a Virgem, os ligava indissoluvelmente
atravs do tempo e do espao. Sim, pertencia a Kimball, como todas as
obras de arte da coleo Heversham...
"Como posso ter pensamentos to ridculos?", pensou, de repente. "Mas no
so... ridculos... so verdadeiros! "
Enquanto tentava situar-se entre aquelas sensaes contraditrias, a
porta do estdio comeou a se abrir lentamente. To lentamente que,
quando virou a cabea para olhar, Dora pensou que talvez se tratasse de
algum movimento sobrenatural, parte do clima misterioso que sentira
enquanto trabalhava no quadro.
Olhou para a porta e, mais perplexa do que amedrontada, viu que algum
entrava.
Era uma mulher baixa e magra, usando um vestido estranho, que depois
Dora percebeu ser uma camisola, enfeitada com rendas e de mangajs muito
largas e compridas.
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A mulher estava descala e seus cabelos, despenteados, embaraados e no
muito longos, caam-lhe sobre os ombros magros.
Dora estava to surpresa que no conseguia se mexer. A mulher, no
entanto, ao v-la comeou a caminhar em sua direo.
Seus ps descalos no faziam rudo, e, por um momento, Dora pensou que
ela no era real, mas sim o fantasma de que falavam.
Quando a mulher chegou mais perto, Dora notou que seu rosto era marcado
por rugas profundas, embora se pudesse descobrir sob elas traos de
beleza. Havia uma expresso estranha e horripilante em seus olhos de um
azul-plido. Pareciam presos de uma profunda aflio.
Ela aproximou-se ainda mais e Dora permaneceu imvel.
- Por que... voc... est aqui? - perguntou a mulher. - O que... est
fazendo... com aquele... quadro?
As palavras foram ditas vagarosamente, como uma criana que estivesse
aprendendo a ler, mas, apesar de serem coerentes, havia qualquer coisa
estranha nelas.
- Eu estou... hospedada... aqui no castelo. - Dora conseguiu dizer.
- Voc precisa... voc tem que ir... embora! Tem que ir embora... de uma
vez por todas! - aconselhou a mulher.
A voz dela tinha mudado e agora havia um tom de acusao no que dizia.
De repente, olhando para Dora, a mulher deu um grito.
- Voc est tentando tir-lo de mim! - dizia ela. -  isso que voc est
tentando fazer! V embora! Suma daqui!
Dora, agora completamente aterrorizada, foi se levantando devagar.
Naquele momento, duas mulheres entraram correndo no estdio.
Pegaram a estranha figura, uma em cada brao, e, pelos uniformes que
vestiam, Dora percebeu que eram enfermeiras.
- Vamos embora, senhora - disse uma delas. - Devia estar dormindo,
descansando.
Ela est tentando tir-lo de mim! Ela no vai permitir que ele
me  veja nunca mais! Ela tem que ir embora! Mande-a embora!
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As enfermeiras comearam a levar a mulher, quase que  fora enquanto ela
continuava a repetir:
- Voc quer tir-lo de mim! V embora!
Finalmente, as mulheres conseguiram tir-la do estdio.
Dora ouviu os gritos por mais algum tempo, at que o som de uma porta
sendo batida chegou aos seus ouvidos e o silncio, mais uma vez, tomou
conta de tudo.
E estava atnita com o que acabara de acontecer. A nica coisa que
conseguiu fazer foi recostar-se contra o espaldar da poltrona e continuar
imvel.
Quem seria aquela mulher? No havia a menor dvida de que devia ser
completamente louca!
A princpio achara o olhar dela estranho, mas agora percebia que aquele
era o olhar de uma pessoa dominada pela loucura. Ela devia ser vigiada o
tempo todo por aquelas enfermeiras e s aparecera no estdio por algum
descuido.
Dora sentia o corao bater descompassadamente e parecia que suas mos
nunca mais parariam de tremer.
Agora estava explicada aquela sensao de estar sendo vigiada. Agora
sabia quem ocupava o aposento ao lado do estdio.
Ainda assim, existiam muitas perguntas das quais Dora temia conhecer as
respostas...
Tinha o terrvel pressentimento de que, se viesse a saber de tudo sobre
aquela mulher, toda a alegria que estava sentindo por estar no castelo
acabaria por se desvanecer completamente.
Subitamente, teve vontade de fugir dali, de voltar para casa, de ficar
livre daquelas emoes conflitantes que a tinham invadido depois de
chegar ao castelo.
Por um momento tudo pareceu rodopiar diante dos seus olhos: Kimball, seu
pai, Sheelah, os peixinhos e os raios de sol no jardim, a mulher de
camisola branca.
"No estou entendendo!", pensou desesperada.
Percebeu que se tinha envolvido numa situao da qual no poderia
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escapar. Tudo aquilo parecia carreg-la, rapidamente, para um destino
completamente ignorado.
No podia recuar agora, tinha que ir em frente, mas nem conseguia
imaginar o custo de que sofrimentos.
Dora s desceu aquela noite para jantar porque sabia que seu pai tambm
desceria.
Ficou sentada no estdio at o anoitecer, mesmo sabendo que seu pai
estranharia o fato de ela no ter aparecido para v-lo. Teria, agora,
pouco tempo para banhar-se e arrumar-se.
At Emily aparecer, trazendo o seu nico vestido de noite, Dora no
percebera que a angstia que sentia estava sendo muito ampliada pelo fato
de no ter o que usar naquela ocasio.
Embora dissesse a si mesma que no tinha vontade de ver Kimball
novamente, no podia ignorar o desejo irresistvel de parecer to bonita
quanto ele dissera.
"Como posso ficar bonita com um vestido to velho e fora de moda? Ao lado
de Sheelah, no pareo mais que uma gata borralheira", pensou com
tristeza.
Mesmo assim, embora relutasse em admitir, desejava ardentemente rever
Kimball, olhar para ele, ouvir sua voz.
Ao mesmo tempo, tinha tantas perguntas sem resposta girando em sua
cabea...
Estremecia s de pensar em Sheelah como amante ou noiva de Kimball. Alm
disso, qual seria a ligao entre ele e aquela estranha mulher que
invadira seu local de trabalho?
"No posso suportar tudo isso! Quero voltar para casa e nunca mais tornar
a ver esse castelo!" Dora tinha vontade de gritar, embora soubesse que
nada daquilo era verdade.
Mesmo que tivesse a oportunidade, no iria embora dali. Por bem ou por
mal, mesmo que fosse sofrer muito, precisava saber o final da histria.
- Est realmente precisando de um vestido novo, senhorita - reconheceu
Emily, com sinceridade.
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- Sei disso, minha cara. O fato, porm, Emily,  que meu pai no est em
condies de gastar dinheiro com coisas suprfluas, como por exemplo, um
vestido de noite para mim.
-  uma pena - retrucou Emily, com convico. - Se tivesse vestidos
bonitos, como os de lady Sheelah, estou certa de que a senhorita ficaria
to linda quanto estas mulheres retratadas nos quadros!
Dora nada respondeu e a criada continuou:
- Lady Sheelah possui centenas de vestidos! Todos os armrios de quarto
dela e os do quarto ao lado esto repletos de trajes maravilhosos. E,
como se no bastasse os que j tem, no se cansa de comprar sempre mais!
Emily olhou para Dora, que continuava calada. Em seguida, acrescentou:
- Tambm pudera! Ela tem quem possa se dar ao luxo de cobrir todos esses
gastos.
Dora quis pedir  criada que se calasse, que parasse de fazer aqueles
comentrios, mas nada conseguiu dizer.
Estava to confusa com tudo aquilo que, de repente, surpreendeu-se
pedindo ajuda  alma de sua me:
"Por favor, ajude-me, mame querida", rezou a jovem em silncio "No
entendo o que est acontecendo comigo e tenho muito medo de meus prprios
sentimentos. Diga-me, por favor, como devo agir e o que devo fazer! "
Dora desejava, profundamente, que sua me pudesse responder quelas
perguntas, acabando de uma vez por todas com sua angstia. Entretanto,
apenas a voz de Emily, que voltava para o quarto com a fita de veludo que
Dora usara na noite anterior, interrompeu o silncio.
- Eu passei a fita, senhorita - mostrou ela. -  mesmo pena que no tenha
uma jia pequena para colocar sobre esta fita.
- Gostei muito do jeito como voc a amarrou ontem  noite. Emily. Por
favor, amarre-a da mesma maneira - pediu Dora.
Depois de pronta, a jovem olhou-se, criticamente, no espelho. Desejou
poder fingir que estava doente e ficar em seu quarto. Assim no seria
obrigada a descer com seu pai e enfrentar o olhar de Kimball
72
o desprezo de Sheelah. com certeza, aquela mulher se divertiria muito ao
v-la com o mesmo vestido, j usado na noite anterior.
Pensou que talvez fosse melhor pedir a seu pai que deixassem aquele
castelo o mais depressa possvel. No entanto, compreendeu, segundos
depois, que no poderia fazer isso. O futuro de seu pai estava
relacionado ao trabalho que realizaria naquele lugar. Restaurar os
quadros da coleo Heversham significaria, alm do dinheiro, o
restabelecimento de seu pai. No, no podia tra-lo, pedindo para que
fossem embora. Tinha que encontrar foras para continuar. Afinal de
contas, no poderia colocar tudo a perder s porque no tinha belos
vestidos!
Foi somente o orgulho que fez Dora descer as escadas com a cabea
erguida, fingindo estar vestida de ouro, em vez de um pano velho.
Foi somente o orgulho tambm que a fez sustentar desafiadoramente o olhar
de Kimball, em vez de se sentir embaraada e cheia de constrangimento.
- Fico muito contente em v-lo entre ns - disse Kimball a Alexander, e
no havia dvida de que estava sendo sincero.
Foi com grande alvio que Dora percebeu que Sheelah no estava na sala.
Rodney e lan disseram terem sentido falta de Dora durante a tarde. E
ainda que ela achava os quadros da coleo Heversham mais interessantes
do que a companhia deles.
- Na verdade, vi poucos quadros - replicou Dora. lan fez um gesto teatral
e disse:
- Quadros! Sempre quadros! Pessoalmente, prefiro ver uma mulher de carne
e osso ao meu lado. Os quadros ficam muito bem pendurados nas paredes.
Alm disso, posso garantir que ns dois poderamos fazer muitas coisas
interessantes juntos.
Dora percebeu que o rapaz estava tentando flertar com ela e desejou
responder algo, mas no sabia exatamente o qu.
Foi salva pela entrada triunfal de Sheelah na sala.
Se Dora desejara estar usando um traje dourado, via agora, com risteza,
que mesmo que o estivesse usando seria difcil disputar com
73
Sheelah naquela noite. A moa usava um vestido prateado, que a fazia
brilhar como uma estrela de primeira grandeza.
A saia ampla era adornada por flores tambm prateadas, cujos miolos eram
rebordados com pedrarias. Todas as luzes dos candelabros se refletiam
naquele maravilhoso vestido e nos brilhantes que usava no pescoo e nos
cabelos. Sheelah mais parecia uma deusa envolvida pelo luar.
To linda a outra jovem estava que Dora chegou a pensar ter sonhado que
Kimball dissera aquelas belas palavras no jardim. Devia ser impossvel
para ele pensar em qualquer outra mulher que no fosse Sheelah.
Ela devia saber disso, pois aproximou-se do Conde e beijou-o no rosto,
como se ele fosse propriedade sua.
Em seguida, falando suficientemente alto para que Dora pudesse ouvir,
Sheelah disse:
- Obrigada, querido Kimball. Espero que voc concorde que valeu a pena
ter me comprado esse vestido.
Se o rapaz respondeu alguma coisa, Dora no ouviu. Os outros homens,
inclusive o major Basil Gower que entrara com Sheelah na sala, estavam
cobrindo-a de galanteios. Ligeiramente sarcstico, lan disse que ela mais
parecia a rainha de Sab.
- Estou preparada para representar a rainha de Sab ou Clepatra, se
Kimball for Salomo ou Marco Antnio! - respondeu Sheelah e
todos riram.
Percebendo que Dora estava um pouco afastada do grupo, o Conde se
aproximou,
- Aceita mais uma taa de champanhe, srta. Colwyn?
A jovem tentou responder calmamente, mas sua voz estava trmula:
- N-no... obrigada.
Dora estava sentada na ponta de uma poltrona e Kimball fitou-a, dando as
costas para os outros convidados, por um momento. Pareceu hesitar, mas
depois de alguns segundos, como se soubesse exatamente o que a moa
estava sentindo, o Conde disse:
- Pedi que confiasse em mim.
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Dora no esperava que ele dissesse aquelas palavras. Fitou-o e viu que
nos olhos dele havia uma expresso que tambm no esperava encontrar.
No conseguia entender o que se passava, mas sabia que no estava
enganada. A expresso que podia ler no rosto de Kimball era de tristeza e
desespero.
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CAPITULO V

 - Eu tinha certeza de que voc cavalgava bem - disse Kimball, enquanto
passavam do galope para um trote mais lento.
- Como poderia saber uma coisa destas? - perguntou Dora, intrigada.
Muito corada pelo esforo e com o vento frio batendo em seus cabelos, a
jovem sentia-se como que num sonho encantado, do qual rezava para no
despertar.
Quando descera as escadas correndo, apressada para no chegar atrasada ao
encontro com Kimball, Dora imaginara estar agindo erradamente, por
permitir que ele a visse to mal vestida. A roupa que estava usando no
era apropriada para cavalgar com ningum, muito menos com o nobre conde
de Heversham.
Quando era pequena e sua famlia ainda no to pobre, seu pai e sua me
costumavam cavalgar pelos campos que rodeavam sua casa.
Dora costumava acompanh-los e, aos poucos, fora aprendendo como manejar
as rdeas.
Sua me sempre fora vaidosa, e preocupava-se muito com a aparncia.
Pensando nisso, Dora tirara seu traje de montaria do armrio e percebera
o quanto ele estava velho e gasto. Alm disso, tinha a saia levemente
justa, o que a faria parecer ridcula.
A moda agora eram saias de montaria bem amplas. A rainha Victoria,
obviamente, usava vrios saiotes sob a sua, a fim de que ficasse to
rodada e armada quanto um vestido de baile.
"A nica coisa a fazer  no sair da cama!", pensara a jovem.
Entretanto, no podia perder a oportunidade de cavalgar em companhia
76
de Kimball. Sem se olhar no espelho, vestira o velho traje de
montaria.
Hesitara ao ver a jaqueta que completava o traje. Alm de apertada,
estava puda e a parte dos cotovelos poderia rasgar-se a qualquer
movimento mais brusco.
Jogara a jaqueta sobre uma poltrona e resolvera sair sem ela, por mais
estranho que aquilo pudesse parecer. Alm disso aquele dia prometia ser
quente!
Dora lembrara-se, ento, de que no tinha um chapu adequado para
cavalgar. Na verdade, trouxera o traje de montaria simplesmente para
esvaziar seu guarda-roupa e no por acreditar que pudesse ter a chance de
andar a cavalo.
Ainda que tivesse lembrado de trazer o chapu, sabia que ele no se
encontrava em bom estado e que, talvez, a deixasse ainda mais ridcula e
mal vestida. Tudo o que tinha a fazer era mandar Emily avisar o Conde de
que no cavalgaria com ele.
Em seguida, lembrara-se da elegncia de Sheelah na noite anterior e
chegara  concluso de que, mesmo que estivesse usando o ltimo modelo em
trajes de montaria, era provvel que Kimball nem reparasse.
Prendera os cabelos num rabo e descera as escadas em direo s
cavalarias, com um ar de desafio no olhar.
Ao ver os cavalos de Kimball, simplesmente esquecera de todo o resto.
Sabia que o Conde devia ter belos cavalos, mas nunca imaginara que
pudessem ser to magnficos. O velho cocheiro ficara todo entusiasmado ao
perceber que ela estava gostando de admirar aqueles belos animais.
Levara-a de baia em baia, contando a histria de cada cavalo, falando
sobre a alimentao deles e de como o Conde os tinha adquirido.
Ao chegar, Kimball os encontrara quase no fim da cavalaria. Ele estava
to belo e elegante que Dora o fitara com olhos arregalados.
- Eu bem que imaginei que voc viria at aqui, em vez de ficar esperando
que levassem os cavalos at a porta do castelo - dissera o rapaz.
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- Era isso que... eu devia... ter feito? - perguntara Dora, rapidamente.
- No. Sempre escolho o cavalo em que quero cavalgar, apesar de
desconfiar que Nick j o escolheu! - explicara Kimball.
- Bem, pode ser, no , senhor? O que acha de sair com Jpiter esta
manh? -, sugeriu o homem. - Na semana passada ele quase no saiu dos
estbulos.
- Sim, pode ser o Jpiter - concordara Kimball. - E que cavalo voc
sugere para o uso da srta. Colwyn?
- Como a jovem entende de cavalos, acho que poderia montar muito bem o
Vulco - dissera o cocheiro.
Kimball concordara, mas, ao ver o empregado trazendo o belo e vigoroso
animal, comentou:
- Voc  to leve e delicada que tenho a impresso de que ser capaz de
flutuar com uma simples brisa. Tem certeza de que conseguir conduzir
este cavalo?
- Espero que... sim.
Quando Kimball segurara-a pela cintura, para coloc-la sobre a sela, Dora
tivera a impresso de que ia desmaiar.
Era a primeira vez que montava num cavalo com a ajuda de algum. Quando
ainda tinham cavalos em casa, o garoto que cuidava deles simplesmente
segurava o estribo para que ela pudesse se firmar.
Kimball fora muito gentil em levant-la, mas nunca pensara que seu
corao pudesse disparar daquela maneira, pelo simples fato de sentir a
presso dos dedos dele sobre sua cintura.
com medo de que o rapaz pudesse ler seus pensamentos, assim que ele
montara em Jpiter, a jovem se adiantara, fazendo Vulco sair. Quando
chegaram ao parque, sem trocarem uma nica palavra, os dois foraram os
cavalos a galopar.
Dora jamais andara num cavalo como Vulco; ele parecia ter descido do
Olimpo e ela sentia-se como que cavalgando nas nuvens.
Quando Kimball a elogiara, a jovem enrubescera. Pensara, ento, que ele
estava apenas querendo parecer bem-educado e tentara responder com
tranquilidade.
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Papai ficar muito orgulhoso de mim quando souber o que o
senhor disse. Ele costuma dizer que uma mulher deve ser to elegante
cavalgando quanto sentada numa carruagem. Concordo com isso, mas estava
com medo de no saber mais cavalgar como antigamente. Estou um pouco fora
de forma.
Kimball ficara em silncio por alguns momentos, depois dissera em voz
baixa:
- Gostaria de poder cobri-la de roupas e jias e nunca mais deixar que
voc pensasse em nada alm de ser bonita.
O jeito como ele dissera aquelas palavras deixara Dora embaraada.
Depois, chegara  concluso de que no deveria lev-lo to a srio.
- No preciso de tanto... - murmurara Dora. - Estou muito feliz agora
e... a nica coisa que gostaria de poder fazer seria cavalgar em Vulco
por toda... a eternidade.
- E eu no quero mais nada, a no ser ficar ao seu lado confessara o
conde de Heversham.
No havia a menor dvida de que a voz de Kimball estava carregada de uma
infinita tristeza.
Dora olhara-o e percebera que o desespero visvel nos olhos dele na noite
anterior ainda estava ali.
Sem saber o que fazer, que atitude tomar, o que dizer para aquele homem
que tanto a perturbava, esporeou Vulco, que comeara a correr pelo
prado.
Minutos depois, o animal diminura, gradualmente, o passo e Kimball a
alcanara.
Ele nada dissera desta vez. Apenas continuara trotando ao lado de Dora,
em direo a um lindo bosque, cheio de rvores antigas e frondosas.
Cavalgaram em silncio at chegarem a uma clareira, bloqueada por algumas
rvores cortadas pelos lenhadores e ali deixadas. Os lenhadores no
estavam por perto.
Kimball desmontara e, colocando a mo em Vulco, dissera:
- Quero conversar com voc. Aqui ningum nos perturbar.
79
Dora estremecera com a seriedade da voz dele. Em seguida, como no lhe
restasse outra opo, deslizara da sela para o cho.
Kimball amarrara as rdeas dos cavalos sobre suas cabeas e deixara-os
pastarem livremente. Depois pegara a mo de Dora com delicadeza e a
conduzira at um tronco de rvore cado no cho.
Dora sentara-se, sabendo que era isso que ele esperava que fizesse.
Pensava no quanto aquele bosque era bonito e misterioso, com os galhos
das rvores filtrando os raios de sol.
Sentia que, enquanto admirava a paisagem, Kimball no tirava os olhos
dela.
Ele tirara o chapu e o colocara no cho ao seu lado. Dora notara, ento,
mais uma vez, o quanto ele era belo e diferente de todos os homens que j
vira.
O fato de estar to perto dele deixou-a tmida, excitada e ligeiramente
temerosa. Ao mesmo tempo, entretanto, uma alegria imensa invadia seu
corao, como se o prprio sol penetrasse em seu ntimo.
Por um momento esqueceu-se de tudo, inclusive de Sheelah e da estranha
mulher de camisola branca que a deixara to assustada na noite anterior.
S conseguia pensar que ela e Kimball estavam a ss e que, quando ele lhe
falava com aquela voz profunda to caracterstica, seu corpo inteiro
vibrava, como se estivesse sendo tocado em algum ponto vital.
No conseguia explicar o que sentia. Era impossvel colocar em palavras
aquele sentimento ou, at mesmo, pensar claramente sobre ele. Sabia
apenas que sentia algo muito forte e que vinha do fundo de seu corao.
Kimball permanecia silencioso. Subitamente, entretanto, como se tivesse
sido hipnotizada, Dora virou a cabea, lentamente, e encarou-o. Tinha a
ntida sensao de que nunca mais poderia desviar seu pensamento daquele
homem.
Depois de ficarem se fitando longamente, Kimball dissera, como se no
pudesse mais se controlar:
- Eu a amo! Amo voc desde o primeiro momento em que a vi! No quando
entrou em minha sala naquela noite, mas sim quando a
80
vi naquela pintura no quarto de minha me. Conclui, ento, que voc era a
prpria personificao da beleza.
Dora tinha a impresso de que o sol se aproximara mais atravs das
rvores para ilumin-los, e era impossvel ver qualquer outra coisa,
devido ao brilho que Kimball irradiava.
- Eu a amo! - repetira ele. - Tinha que lhe dizer isso antes de mand-la
embora.
Foram necessrios alguns instantes para que aquelas palavras comeassem a
fazer sentido na mente entorpecida de felicidade da jovem.
- M-mandar-me... embora? - perguntara ela, com uma voz que no parecia a
sua.
- Minha querida, minha doce querida, meu precioso e puro amor
- dissera Kimball, com a voz entrecortada. - Por que tinha que acontecer
tudo isso? Voc no entende? Oh, meu Deus, por que tinha que acontecer
isso comigo?
Kimball falara com tanta angstia na voz que, sem pensar, Dora estendera
suas mos.
- O que est... dizendo? - perguntara ela, completamente confusa. - O
que... aconteceu? Voc tem que... me contar!
Ele pegara suas mos e apertara-as tanto, que Dora estremecera. Depois de
um suspiro longo e doloroso, ele comeara a falar:
- Se cometi algum pecado em minha vida, estou agora pagando por ele.
Estou preparado para aceitar meu destino, mas no quero arrast-la para o
sofrimento. No poderia suportar isso!
- O que... aconteceu? - perguntara Dora, outra vez.
O jovem Conde desviara seus olhos dos dela e fitara suas mos
entrelaadas. Como se quisesse desculpar-se por t-las apertado com
fora, beijara os dedos da jovem e depois as palmas de suas mos,
ternamente.
O toque dos lbios dele em suas mos despertara em Dora um Sentimento to
profundo, to vital, que ela sentia sempre ter feito Parte de seu
corao, embora nunca o tivesse experimentado antes.
Em seguida, como se no ousasse mais toc-la, Kimball largara as aos da
jovem e, no mesmo tom de voz entrecortado, perguntara:
81
- O que voc sabe sobre mim, querida?
- Muito pouco, a no ser que voc ... o homem que sempre povoou... os
meus sonhos.
Dora falara to baixo e timidamente, que pensara que Kimball no fosse
ouvi-la. De repente, ao ver um brilho suplantar a tristeza dos olhos
dele, percebera que ele no s tinha ouvido como parecia agora mais jovem
e feliz.
- O que mais significo para voc? - perguntara ele em voz baixa.
- O que sente por mim?
Estavam novamente se entreolhando e, como era impossvel dizer qualquer
coisa que no fosse a verdade, Dora respondera:
- Eu... amo voc! Mas no sabia que... o amor seria... assim.
- Amo voc tambm, querida - repetira Kimball. -  verdade, ns nos
pertencemos desde que aquele quadro foi pintado. Eu sabia que voc era
minha, antes de ter conscincia de qualquer outra coisa.
- Estas coisas... podem mesmo... acontecer?
- Tenho certeza de que sim, minha querida. No entanto, o destino nos uniu
apenas para separar-nos novamente.
- Por qu? Por qu? - perguntara Dora, agora lembrando-se de Sheelah e
sentindo como se o sol se tivesse apagado no cu.
Parecendo ler os pensamentos dela, Kimball protestara:
- No, ela no  importante. O que voc no sabe  que eu... eu sou
casado!
Dora sentira aquela palavra como uma punhalada, embora j suspeitasse
dessa verdade. Imaginara que esta era a explicao para a mulher que
entrara no estdio para gritar com ela, na noite anterior.
Kimball respirara fundo.
- Ontem  noite no consegui dormir, pensando em voc e querendo voc at
achar que ia ficar louco. Compreendi, ento, que no suportaria que voc
ficasse conhecendo a verdade, atravs de outra pessoa que no eu.
Aquela era a atitude que Dora esperava dele. Ao mesmo tempo,
82
porm, no conseguia pensar em mais nada, pois aquelas palavras no
paravam de martelar em sua cabea:
"Casado! Casado! Ele ... casado! "
Kimball pusera-se a olhar em direo  clareira.
- Casei-me quando tinha apenas vinte e dois anos. Era uma mulher que meus
pais consideravam adequada para mim. Pressionaramme tanto, que me vi
forado a concordar com o que desejavam.
Dora forara-se a ouvir o que ele lhe estava contando. Como ele era
bonito e rico e certamente havia muitas mulheres que deviam querer se
casar com ele, seus pais desejavam certificar-se de que sua noiva seria a
pessoa adequada, sob todos os pontos de vista.
- Maureen era filha do marqus de Fane, cujas terras fazem fronteira com
as deste castelo. - Kimball respirou fundo antes de continuar: - O
marqus no tinha filhos e estava resolvido a fazer uma aliana.
Pressionou de todas as maneiras possveis, para que sua filha aceitasse
meu pedido de casamento.
- Ela no... queria... aceitar? - perguntara Dora, quase num murmrio.
- Mas foi obrigada a faz-lo, embora estivesse apaixonada pelo professor
de equitao.
- No permitiram que... eles se casassem? - indagou a jovem, surpresa.
- No, claro que no! Nunca permitiriam quando havia a possibilidade de
ela se casar com o herdeiro do castelo Heversham!
- O que... aconteceu, ento?
- Ns nos casamos, com toda a pompa, damas de honra, cumprimentos e tudo
o mais que as mulheres adoram e que deixa os homens embaraados. -Kimball
fizera uma pausa, mas, como no havia nada que Dora pudesse dizer,
continuara: - Na nossa lua-de-mel, Maureen,
no parava de chorar, disse que me odiava e reafirmou seu infinito
amor pelo homem que tinha deixado.
Dora sabia que, acima de qualquer outra coisa, aquilo devia ter ferido o
orgulho de Kimball e tomou as mos dele nas suas.
- Eu... sinto muito - murmurara a jovem.
83
- Acho que eu era jovem e estpido e no sabia como lidar com aquela
situao - explicara o rapaz.
- O que... voc... fez, ento?
- Nada. Tentei enfrentar a situao e confort-la. Cheguei at a sugerir
que mantivssemos apenas as aparncias. - Kimball suspirara. - Eu achava
que, apesar de tudo o que Maureen dissera, ns talvez um dia chegssemos
a nos gostar. Ela era muito bonita e eu me sentia atrado por ela, como
mulher.
Dora sentira uma pontada de cimes e apertara suas mos.
- Eu sabia que no estava apaixonado, embora conhecesse muito pouco esse
sentimento - continuara Kimball. - Acho que o que sinto por voc, minha
querida,  algo que s acontece nos livros, ou talvez nos quadros.
Ele a fitara e Dora tivera a sensao de que o tempo havia parado.
- O que... aconteceu depois? - perguntara ela, conseguindo libertar-se
dos olhos de Kimball.
- Voltamos de nossa lua-de-mel, que foi uma farsa desde o comeo, e fomos
morar numa casa no campo, que meu pai mobiliara e decorara para ns. Foi
a que comecei a perceber que Maureen era desequilibrada.
- Deve ter... sido terrvel! - exclamara Dora.
- Eu tinha medo, mas era orgulhoso demais para admitir isso confessara o
jovem Conde.
- O que voc fez? - indagara a jovem.
- Maureen fazia um grande esforo, quando estvamos diante de outras
pessoas. Durante muito tempo, meus amigos sequer imaginavam que ela fosse
diferente das outras mulheres de sua idade. Kimball ficara mais tenso. -
Embora os pais de Maureen soubessem que ela no era normal, estavam to
empolgados com o casamento, que foraram os mdicos a no dizerem nada.
S fiquei sabendo disso depois de algum tempo. Eles tinham obrigao
moral de avisar a mim ou a meus pais, pois Maureen no devia casar-se com
quem quer que fosse.
- Que... armadilha cruel!
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Usei estas palavras milhares de vezes, nos anos que se seguiram
- , dissera Kimball. - Como sou dotado de muito orgulho, como seu pai, ao
compreender minha real situao, conclui que no suportaria a humilhao
de ver as pessoas tendo pena de mim.
- Entendo - respondeu Dora.
- Enquanto ainda estava tentando decidir sobre o que faria, Maureen
piorou. Os mdicos disseram que ela deveria ser internada e eu resolvi
lev-la para o exterior.
- Ento foi por isso que voc deixou a Inglaterra! - exclamou a jovem.
- Isso mesmo! Primeiro fomos para uma vila em Florena. Depois que o
estado de sade mental dela ficou conhecido por l, nos mudamos
novamente. - Kimball suspirou mais uma vez. - Conheci partes do mundo que
nunca teria conhecido se as circunstncias fossem outras. Conheci homens
e mulheres de outras nacionalidades e aprendi a respeito de seus pontos
de vista e de seu modo de viver.
- Mas deve... ter sido muito... difcil para voc...
- Era muito difcil esconder a situao, pois os criados sempre falavam.
Mesmo que no dissessem nada, era evidente que as pessoas sabiam do
problema e, com o tempo, fui me adaptando e aceitando a situao. Mas
como eu odiei tudo isso! - A voz dele estava completamente alterada, como
se ele j no suportasse sua pesada cruz. - Odiei cada momento da minha
vida! Exatamente como odeio estar contando para voc tudo o que sofri!
- Por favor... por favor... no diga mais nada! - suplicara Dora. - Eu
compreendo e... admiro voc... muito mais do que... j admirava antes!
- Voc precisava saber, tinha o direito de saber! Eu no suportaria que
houvesse segredos entre ns, meu amor.
Dora dera um longo suspiro.
- Voc sabe que eu faria... qualquer coisa que voc quisesse e me di
muito... v-lo to infeliz.
- O que me di  ter que lhe contar sobre tudo isso, quando ttinha
vontade  pegar a Lua, o Sol e as estrelas e colocar a seus ps.
85
Havia tanto amor na voz dele, que Dora ficara trmula. Percebendo isso,
Kimball apertara-lhe as mos carinhosamente e continuara.
- Meu pai morreu e eu tive que voltar para casa. Trouxe Maureen comigo e
tenho certeza de que voc percebeu que existe alguma coisa estranha no
castelo, que o torna diferente dos outros.
- Eu... vi Maureen - murmurou Dora, suavemente.
- Como? - indagou Kimball, sem compreender.
- Enquanto estava trabalhando no quadro, tinha certeza de que algum me
observava. Ontem  noite ela entrou no estdio e disse para eu... ir
embora, porque estava tirando voc... dela.
Fora difcil dizer aquelas palavras e a voz de Dora tornara-se quase
inaudvel.
- Oh, meu amor, isso no devia ter acontecido! Foi um descuido
imperdovel das enfermeiras.
- Eu senti... muita pena... dela.
- Maureen realmente desperta compaixo... Mas, minha querida, no era a
mim que ela se referia... Era ao homem que amava e que no conseguiu
esquecer em todos estes anos e que, no preciso dizer, no merecia todo
esse amor.
- Oh, no! - exclamara Dora.
Como era possvel que a esposa do Conde ainda chorasse por outro homem,
quando podia ter o prprio Kimball?
- Eu mesmo tentei descobrir quem ele era - continuou -, o marqus o
colocara num cargo de confiana. Ele supervisionava o trabalho com os
cavalos de corrida e dava aulas de equitao para Maureen. Parece
incompreensvel que uma pessoa decente e honrada fosse capaz de seduzir
uma jovem impressionvel na situao de Maureen, mas foi exatamente o que
ele fez.
- Os pais dela... sabiam disso antes... de vocs se casarem? - indagou
Dora.
Kimball hesitara antes de responder:
- No tenho certeza. Eles no admitiriam,  claro. Sabiam que ela estava
 apaixonada e por isso queriam que nosso casamento se realizasse o mais
depressa possvel.
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- Que jeito horrvel de agir! - exclamara a jovem.
- Acho que eu deveria ter achado estranho o fato de eles nunca permitirem
que eu ficasse a ss com Maureen por muito tempo reconhecera o rapaz. -
Entretanto,  sempre fcil perceber essas coisas, depois que tudo
acontece.
- Que... absurdo!
- Absurdo  a palavra certa, Dora, mas ns somos casados e, segundo a
Sagrada Escritura: at que a morte nos separe.
Ficaram em silncio por alguns momentos. Em seguida, Kimball dissera com
a voz ainda mais pesarosa:
-  por isso que no tenho nada a lhe oferecer, alm do meu corao, que
j  seu.
- E o meu...  completamente seu - confessara Dora.
-  verdade?  mesmo verdade? - perguntou o jovem Conde.
- Eu amo voc! - dissera Dora. - J o amava antes de saber de tudo isso.
Agora eu o amo ainda mais. Amo um homem corajoso, honrado e bom!
Kimball fizera um gesto impaciente, como se fosse protestar, mas dissera
apenas:
- Voc ainda diria isso, se soubesse que Sheelah Turvey  minha amante?
- Eu no... gosto dela - dissera Dora com sinceridade. - Mas acho que
ela... deve t-lo ajudado a... esquecer.
- Meu amor, eu sabia que voc pensaria assim! Sim, ela realmente tem me
ajudado a esquecer. - Kimball fizera uma pausa. - Tive outras Sheelah
Turvey em Roma, Veneza, e em quase todas as partes do mundo em que estive
com minha mulher, que chorava sem parar Por outro homem.
- No fale assim! - exclamara Dora, sem poder suportar a angstia na voz
dele. - No aguento isso! Acho maravilhoso voc ter se comportado com um
orgulho que meu pai admiraria, mas odiar, ser... cnico e amargo...
estragaria o nosso... amor.
- O nosso amor! Seu e meu! - repetira Kimball.
- S... sim - assentira Dora.
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- Oh, minha querida, se eu conseguisse lhe dizer o que significa para mim
ouvir isso! Quando eu a vi entrando na sala naquela noite, tive a certeza
de que algo maravilhoso estava para acontecer e que mudaria tudo! Quando
vi seu rosto, por um momento pensei estar sonhando... Voc parecia ter
sado daquela tela e vindo at mim, quando eu mais precisava de voc.
- Voc sentiu isso mesmo? - interpelara a moa enlevada.
- E muito mais, que no consigo colocar em palavras, querida. Quando fui
dormir aquela noite, fiquei ainda por muito tempo sentado em minha
saleta, olhando para voc em meu quadro. Compreendi, ento, que conhecer
voc fora uma ddiva do cu. Entretanto, sintome, ao mesmo tempo,
crucificado, pois nada tenho a lhe oferecer... nada! - Kimball abaixara a
voz, ao concluir: - Estou irremediavelmente ligado a uma mulher que me
odeia e que, de acordo com os mdicos, poder, tranquilamente, viver mais
do que eu!
Por um momento, Dora achara que nada tinha a dizer. De repente, no
entanto, as palavras saram de sua boca, quase que involuntariamente:
- Ns ainda... temos... duas coisas - dissera ela.
- O qu? - indagara ele, esperanoso.
- F e... amor.
- F? - perguntara Kimball.
- F de que um dia... no sei como... pela bondade de Deus... tudo venha
a se resolver e que ns possamos, ento... ficar juntos.
- Voc acredita mesmo nisto?
- No  que eu... acredite: eu sei que isso vai acontecer. No me
pergunte como, mas, mesmo contra todos os argumentos lgicos, sei em meu
corao que isso ir acontecer. Sei disso porque... voc ... porque
quando voc me toca... sinto que somos... uma s pessoa.
Kimball suspirara, profundamente.
- Como voc, vou acreditar que um dia ficaremos juntos e que no haver
mais sofrimento.
Ao terminar de falar, Kimball beijara as mos de Dora ternamente,
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depois ficara em p e a fizera levantar-se tambm. Contemplaram-se por um
longo momento. Em seguida, Kimball abraara-a e beijara-a.
Fora inevitvel e, ao mesmo tempo, perfeito e maravilhoso o que o destino
lhes reservara desde o incio do mundo.
Ao sentir os lbios de Kimball sobre os seus, compreendera que estivera
certa ao dizer que eles eram uma s pessoa e que, espiritualmente, nada
poderia separ-los.
No incio o beijo fora gentil. Depois, entretanto, ao encontrar os lbios
suaves, inocentes e doces de Dora, Kimball tornara-se mais exigente, mais
possessivo e, ao mesmo tempo, mais terno e protetor.
Dora sentira que o amor passava de seu corpo para o dele, que seu corao
era o corao dele e que qualquer coisa que viesse a acontecer no futuro
no teria qualquer importncia. Nunca o perderia, pois eram indivisveis,
eram uma s pessoa.
com aquela sensao maravilhosa e inebriante, cada parte de seu corpo
parecia mais viva do que nunca, e ela sentia-se repleta de uma alegria e
prazer, at ento desconhecidos.
Quando Kimball finalmente erguera a cabea, Dora conseguira fitlo e
sentir que tinha sido carregada para o paraso.
- Eu... amo... voc! - dissera a jovem, e, como ainda tremesse por causa
das emoes que ele lhe despertara, Dora escondera o rosto no ombro dele.
- Amo voc, tambm, minha querida. Amo tanto que nunca mais serei capaz
de ver outro rosto que no seja o seu, de ouvir qualquer voz que no seja
a sua ou de beijar outros lbios que no sejam os seus.
Dora sabia que aquilo era uma promessa e que Kimball dedicaria a ela
todo o tempo que pudesse.
Subitamente, quando levantara a cabea para dizer novamente que
O amava, o jovem Conde beijara-a com paixo vida. Ele parecia disposto a
compensar o fato de no poder possu-la fisicamente, garantindo que seu
corao e alma lhe pertenciam, inteiramente.
Depois de um longo tempo, ambos haviam galopado at o castelo, em
silncio.
89
Sentiam-se como se tivessem viajado at o fim do mundo e encontrado o
paraso. Os portes, entretanto, estavam fechados, forando a voltarem 
realidade. No entanto, sabiam que nunca mais seriam os mesmos.
- No devemos dizer nada agora, pois no podemos aborrecer seu pai -
disse Kimball, quando avistaram o castelo. - Mas voc sabe meu amor, que
 vou cuidar de vocs. Pensarei numa forma de ajud-los  sem que seu pai
sinta seu orgulho ferido.
Por uma frao de segundo, Dora pensou que devia recusar o que  Kimball
lhe sugeria. Em seguida, compreendeu que o amor deles tinha que ser maior
 do que o orgulho. Kimball gostaria que ela tivesse o mesmo conforto que
 ele e ficaria aborrecido e deprimido se a jovem no aceitasse sua ajuda.
"Deixarei isso por conta de Kimball", pensou Dora. "Ele sabe como
papai e e pensar num jeito de nos apoiar, sem que se sinta insultado.
Dora olhou para o jovem Conde e pensou que no existia outro homem mais
gentil, belo e maravilhoso que ele.
Kimball fitou-a e sorriu. O mundo inteiro parecia radiante com o amor dos
dois. At o castelo parecia brilhar com uma luz que Dora nunca vira
antes.
- Ningum deve saber que cavalgamos juntos - disse Kimball, enquanto se
aproximavam da cavalaria. - Amanh faremos a mesma coisa. Sairemos
juntos todos os dias, at voc ir embora.
- Primeiro papai ter que ver os quadros, seno comear a estranhar as
coisas - sugeriu Dora.
- Quero que voc tambm veja todos eles - replicou Kimba!
- No futuro, talvez os quadros facilitem as coisas para ns. Poderc
mand-los para seu pai restaur-los em casa. Isso serviria como desculpa
para lhe mandar outras coisas tambm.
Dora sentiu que ele estava indo depressa demais e que poderia mand-la
embora a qualquer momento.
- Por favor, por favor, deixe-me ficar mais tempo... no consigo nem
pensar como ser... no poder v-lo... ou ouvir sua voz disse ela.
90
- E como voc acha que vou me sentir? - perguntou Kimball.
Quando voc for embora, meu amor, minha vida ser uma eterna
escurido!
Em seguida, como se no suportasse mais os pensamentos que o
atormentavam, Kimball esporeou o cavalo e entrou no ptio, onde os
criados o esperavam, e desmontou.
J em seu quarto, Dora achou que devia ter sonhado com tudo aquilo.
Era uma tragdia, como as histrias da mitologia grega, pensou ela, e,
embora tivesse dito que deviam ter f de que algum dia pudessem ficar
juntos, no conseguia parar de pensar:
- Quanto tempo isso vai demorar, meu Deus?
Dora tirou o traje de montaria para vestir um dos vestidos reformados.
Foi at o quarto de seu pai para lhe desejar um bom-dia. Jim insistia
para que ele tomasse o caf da manh na cama, mas Alexander informou-a
que se levantaria para comear a inspeo no castelo.
- Agora vou saber se a coleo Heversham pode rivalizar com a nossa -
disse Alexander. - Se no for do mesmo nvel, no hesitarei em dizer ao
Conde.
- Claro que no, papai. O senhor sempre diz o que pensa respondeu Dora.
- Honestamente, acho que  a melhor poltica - argumentou o velho
Alexander.
Era visvel que ele estava muito melhor de sade. Dora sentiu um grande
alvio por no ter mais que ficar to ansiosa por causa dele.
Desceu at o salo e ficou surpresa ao verificar que fora a primeira a
chegar. Logo depois, entretanto, os outros trs homens se aproximaram.
Kimball no apareceu e Dora tinha certeza que ele no conseguira se
refazer to depressa quanto ela. Tinha absoluta certeza de que ele estava
sentado em sua saleta, olhando para o quadro de Van Dyck, pensando nela.
91
- O que pretende fazer hoje, srta. Colwyn? - perguntou lan, ao terminarem
o caf da manh.
- Meu pai vai descer daqui a pouco, e, como deseja ver os quadros, vou
acompanh-lo pelo castelo - respondeu Dora.
- Talvez seja uma revelao para todos ns - declarou Rodney.
- Seria uma piada se a coleo Heversham no fosse o que todos imaginam
que !
- Mas , sim! - exclamou Dora. - Os quadros so realmente magnficos!
Precisam apenas de limpeza e restaurao, para voltarem a ser como
originalmente eram.
- Isso vai levar muito tempo - comentou lan.
- Acho que vai levar anos - acrescentou o major Gower. At l, todos ns
estaremos de cabelos brancos.
- Acho que meu pai no vai viver tanto! - disse Dora, sorrindo.
- Pode ter certeza disto! - disse Rodney. - Lady Sheelah j est
planejando a forma mais rpida de se livrar de vocs!
Dora j percebera antes que Rodney no apreciava sua intromisso no grupo
e agora tinha a confirmao. A jovem tambm no apreciava muito o rapaz,
embora no tivesse qualquer razo concreta para tal.
- Que coisa desagradvel de se dizer - comentou o major Gower.
- Mas  verdade! - insistiu Rodney. - Tenho certeza de que a srta. Colwyn
sabe muito bem que Sheelah no suporta ser passada para trs!
Achando a conversa intolervel, Dora levantou-se.
- vou ver se meu pai j est pronto para descer - disse calmamente,
caminhando at a porta, antes que os homens tivessem tempo de se mexer.
Quando j tinha sado e estava para fechar a porta, a jovem ouviu lan
dizer:
- Pelo amor de Deus, Rodney! No torne as coisas piores do que j esto.
Voc sabe como Sheelah ! Ela seria capaz de matar qualquer mulher que
tirasse dela a ateno de Kimball!
-  verdade - concordou o major Gower. - Ela encontrou um homem rico e
lutar como uma fera se ele tentar escapar.
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De repente, Dora surpreendeu-se ouvindo uma conversa alheia. No tinha a
inteno de fazer isso, mas ficara completamente paralisada ao ouvir o
que lan dissera em sua defesa. Sentindo que o que eles estavam dizendo
era degradante e ofensivo ao amor que a unia ao jovem Kimball, saiu
correndo pelo hall e subiu as escadas.
S quando chegou  frente da porta do quarto de seu pai foi que Dora
pensou desesperada em como suportaria pensar em Sheelah com seu amado
Kimball. Lembrava-se da amargura que havia na voz dele, ao dizer que
muitas Sheelah Turvey o ajudavam a esquecer.
93
CAPITULO VI

Dora no entrou no quarto de seu pai, indo direto para o seu.
Estava aborrecida com o que ouvira e pensou que talvez Kimball tivesse
razo. Seria certamente impossvel ficar no castelo, enquanto Sheelah
estivesse por l.
Por outro lado, partir dali com o corao explodindo de amor seria uma
agonia que ela no se sentia capaz de suportar.
- O que vou fazer? - perguntou ela, a si mesma.
No existia resposta quela pergunta. Dora aproximou-se da janela e, pela
primeira vez, no encontrou beleza no jardim, nas flores ou no canto dos
pssaros.
S conseguia lembrar-se da dor na voz de Kimball e do desespero que vira
nos olhos dele.
Rezou novamente  alma de sua me pedindo ajuda. Acreditava que ela, que
havia sido to feliz, compreenderia como ningum o que ela sentia por
aquele homem que praticamente acabara de conhecer, mas que parecia ter
estado com ela desde o despertar dos tempos.
De repente, a porta foi aberta bruscamente, quando Dora virou-se,
apreensiva, e viu Sheelah, que entrava em seu quarto.
Usava um neglige de cetim e rendas sobre a camisola e seus cabelos
ruivos estavam soltos.
Dora notou que era a primeira vez que a via completamente sem maquilagem.
No teve, porm, tempo para fazer consideraes sobre sua aparncia, pois
Sheelah avanou em sua direo. Os olhos verdes da moa faiscavam e seu
rosto estava transtornado pela raiva.
Quando falou, sua voz soou como o rugido de um animal feroz e
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por achou que o major Gower fora feliz ao descrev-la como uma fera.
- Fiquei sabendo que voc esteve cavalgando com o Conde gritou ela,
furiosa. - Como se atreve a sair com ele nas minhas costas? Deixe-me
inform-la, sua pretensiosa, de que o Conde  meu e de que, to logo ele
se livre daquela mulher louca, ns pretendemos nos casar!
A ferocidade da voz de Sheelah era assustadora, mas Dora conseguiu ficar
em silncio, fitando-a com desprezo e aparentando uma calma que estava
longe de sentir.
Parecia impossvel que qualquer mulher bem-educada perdesse o controle
daquela maneira.
- Voc e seu pai no tm o direito de explorar a bondade do Conde -
continuou ela, levantando ainda mais o tom de voz. Vocs dois impuseram
sua presena aqui, mas o Conde  muito cavalheiro e no os colocou em
seus devidos lugares que, para mim,  na ala dos criados!
Sheelah ergueu a mo e, por um momento, Dora temeu que aquela mulher
fosse agredi-la fisicamente. Em seguida, com uma exclamao de raiva que
pareceu vibrar visivelmente entre as duas, Sheelah retirou-se do quarto,
da mesma maneira impetuosa como ali entrara.
Por um momento, Dora permaneceu imvel. Apenas sentia no ar o perfume
forte de uma extica fragrncia oriental. Ficou ali, trmula e chocada
pelo que acabara de ouvir.
Depois, ao pensar em Kimball tocando naquela mulher, cobriu o rosto com
as mos, como se no quisesse admitir que, mesmo furiosa e mal-educada,
Sheelah continuava bela.
- No posso mais ficar aqui - resolveu Dora, naquele momento. Tentou
imaginar o que deveria dizer para convencer seu pai a
voltar para casa.
Ficou parada diante da janela pr um longo tempo, refletindo e sofrendo.
Depois, como no aguentasse mais a solido, Dora saiu  Procura de seu
pai, sentindo-se como uma criana magoada, insegura e infeliz.
95
Como imaginara, Alexander estava na galeria, acompanhado pelo
administrador do castelo. Eles paravam diante dos quadros, admiravam-nos,
e ao mesmo tempo seu pai criticava o estado de conservao de cada um e
dizia o que deveria ser feito.
O administrador tomava notas e, quando Dora chegou, o homem disse
educadamente:
- bom dia, srta. Colwyn! Como pode ver, seu pai est me dizendo como
fomos desleixados, negligenciando o que, sem dvida alguma,  nosso maior
tesouro.
-  um absurdo! Um absurdo! - exclamava Alexander. - Veja s, Dora, esse
Francesca! Se no for tratado, um dos mais belos trabalhos deste gnio
estar arruinado!
A jovem sabia que seu pai estava aborrecido daquela maneira, porque s
existiam agora no mais de doze quadros de Francesca.
Dora olhou para o quadro com mais ateno e viu que retratava a rainha de
Sab adorando o Menino Deus. Lembrou-se imediatamente de que Rodney
dissera que lady Sheelah com o vestido prateado mais parecia a rainha de
Sab.
Apesar de tentar se convencer do contrrio, Dora sentia que, at o fim de
sua vida, tudo o que visse a faria lembrar-se do Conde ou de algo que se
relacionasse a ele.
Alexander Colwyn terminara de dizer tudo o que queria sobre o Francesca e
passara a examinar outro quadro. Enquanto o administrador fazia as
anotaes, Dora pensava em como faria para mostrar a seu pai o Van Dyck
em duplicata.
Dora sabia que no poderia partir, sem que a questo da autenticidade
daquele quadro fosse solucionada. Do contrrio, nunca mais conseguiria
olhar para a duplicata em Mountsorrel, ignorando ser ela verdadeira ou
falsa.
- Kimball tambm deve sentir o mesmo - pensou Dora. - Ele deve estar
preparado para aceitar o veredicto de papai, por mais penoso que seja.
Naquele momento, como que materializado por seus pensamentos, Kimball
apareceu do outro lado da galeria e Dora teve a certeza de
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que o rapaz achara impossvel ficar longe dela. Podia ler isso na
expresso dos olhos dele.
O Conde cumprimentou seu pai, que imediatamente ps-se a falar sobre os
quadros que examinara e sobre o que precisava ser feito em cada um deles.
- No consigo entender por que meu pai negligenciou a coleo durante
tanto tempo - disse Kimball, quando Alexander parou para respirar. - A
nica explicao possvel  que ele, por ter sempre vivido aqui, desde
pequeno, via os quadros como estavam na sua infncia.
- . Pode ser - concordou Alexander. - Entretanto, quadros so como
crianas: precisam de cuidados e amor e nisto sinto que vocs falharam.
- Prometo que no futuro recebero tudo isso - replicou Kimball. Pelo tom
de sua voz, Dora percebeu que ele estava pensando que,
quando olhasse para os quadros e para um deles em particular, estaria
pensando nela.
- Acho que agora poderia mostrar os Van Dyck para papai, senhor - disse
Dora. - Principalmente aquele que se encontra em sua saleta ntima.
Pensou que Kimball fosse sorrir, concordando, mas, em vez disso, viu o
sofrimento anuviar seus olhos.
- Claro que quero ver os seus Van Dyck - disse Alexander. Existe alguma
coisa de especial em algum deles que requer a minha ateno?
Dora deu a mo ao velho sr. Colwyn.
- Sim, papai - disse ela. - O Conde quer que o senhor tome uma deciso
que no ser nada fcil.
- Por qu? - perguntou Alexander. - Bem, no farei mais perguntas. Apenas
me mostrem o quadro e eu entenderei do que se trata.
A galeria ficava no primeiro andar, no muito longe dos aposentos
Particulares do Conde, na ala sul do castelo.
Caminharam em silncio e Dora notou que o administrador seguia,
discretamente, atrs deles.
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Kimball abriu a porta e todos entraram. A primeira coisa que Alexander
notou foi os quadros pintados por Stubbs. Em seguida, se que ningum
precisasse apontar, viu o Van Dyck e se aproximou.
Ficou parado, olhando o quadro que significava tanto para Dora e
Kimball,  que aguardavam seu julgamento com a respirao suspensa.
-  estupendo! - murmurou Alexander finalmente. - O mestre estava em seu
apogeu! Duvido que tenha existido outro pintor com tcnica to
brilhante,  capaz de transmitir uma percepo espiritual  to aguada
quanto ele.
O velho restaurador parou de falar e a filha fitou-o, surpresa, antes de
dizer:
- O senhor... deve saber, papai, o que estamos... esperando. ouvir, no
?
- O qu? - perguntou ele, distraidamente, enquanto examinava um canto da
tela, onde a tinta parecia estar rachada.
- Quando vi este quadro pela primeira vez mal pude acreditar qe  era
uma... duplicata do... nosso - desabafou Dora. - Diga-nos papai, qual
deles  o falso?
- Falso? O que  isso, minha filha? - indagou Alexander, com espanto.
- Mas... papai!
De repente, o velho precipitou-se a rir:
- Ento  isso! Pelo amor de Deus, minha filha! Estou vendo que no
ensinei o suficiente a voc sobre meus artistas preferidos. - Virou-se
ento para Kimball. - E, como proprietrio de uma coleo to magnfica,
o senhor  bastante desinformado!
- Como assim? - perguntou o rapaz.
- O que vocs dois deviam saber  que Van Dyck pintava frequentemente
duas verses de assuntos que lhe interessavam partcula mente.
- Duas... verses, papai! - exclamou a jovem, mal podendo acreditar no
que  ouvira.
- Admito que raramente ele as fez to idnticas quanto esta e que eu
possuo - declarou Alexander. - Ele pintou duas vezes
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Zombando de Cristo, uma verso est em Berlim e a outra em Madri; pintou
So Sebastio duas vezes, alm de dois retratos da Marquesa de Spnola. -
Alexander riu ao ver a surpresa estampada nos olhos dos dois jovens. - 
extraordinrio que nenhum de vocs saiba disso. Eu at poderia enumerar
mais meia dzia de trabalhos em duas verses. - Sorriu, quando
acrescentou para Kimball: - E o senhor at deve t-las visto em suas
viagens.
- Estou envergonhado... respondeu Kimball - mas, ao mesmo tempo,
profundamente aliviado e feliz, pois, ao contrrio do que sua filha
pensou logo que o viu, este quadro no  uma simples cpia do que est em
Mountsorrel.
- Algum dia ns colocaremos as duas telas lado a lado e ento poderei
mostrar-lhes que, embora existam diferenas pequenas entre elas, algumas
tcnicas seriam impossveis de serem copiadas por algum, por mais
talentoso que fosse.
Dora deu um suspiro de alvio. Agora que sabia que seus temores eram
infundados, sentiu que sua f no futuro estava justificada e que, por
mais que parecesse impossvel, algum dia ela e Kimball ficariam juntos
para o resto de suas vidas.
Seus olhares se encontraram e Dora teve a sensao de que estava sendo
abraada e beijada pelo belo conde de Heversham.
Teve vontade de gritar que o amava, mas sabia que as palavras eram
desnecessrias.
Era quase hora de almoo, quando deixaram os aposentos particulares de
Kimball, dirigindo-se  escada principal. Alexander parava a todo momento
para examinar os quadros, comentar seu estado de conservao ou criticar
a maneira como estavam pendurados.
Na parede que circundava a escada, havia outro Van Dyck, que no era um
dos melhores trabalhos do gnio flamengo. Alexander disse que talvez
tivesse sido pintado quando o artista estava doente e desapontado pela
recepo que tivera em Anturpia, onde esperava ocupar a posio deixada
por Rubens.
Os outros hspedes j estavam na sala de almoo, quando o Conde,
99
Dora e seu pai l chegaram. Logo ao entrar, a jovem percebeu nitidamente
o olhar venenoso de Sheelah.
- Vejo que fez uma grande excurso - disse Rodney. - Bem, sr. Colwyn,
qual  o seu veredicto?
- Precisa perguntar? - foi a resposta. - O conde de Heversham  um dos
homens de mais sorte do pas! Ele possui um tesouro absolutamente,
impossvel de se avaliar!
- O senhor deve estar se referindo a mim! - interrompeu Sheelah, passando
o brao no de Kimball e voltando os olhos para ele. - Diga que  verdade,
querido, que sou um tesouro impossvel de se avaliar.
- Acho que primeiro devo oferecer uma bebida a nosso precioso crtico,
depois de uma manh de trabalho duro - replicou o Conde afastando-se da
impertinente mulher, que agora dirigia um olhar furioso para Dora.
O que salvou o almoo de ser um completo desastre foi o fato de Alexander
ter muito a dizer sobre os quadros que examinara. Por conhecer muito bem
o assunto, tornava-o interessante para todos e contou muitas passagens
sobre a vida dos artistas que, na maioria das vezes, tinham tido uma
existncia peculiar e bomia.
Todos estavam atentos ao que Alexander dizia, exceto lady Sheelah, que se
mostrava aborrecida e impaciente por ter roubada a ateno que
considerava inteiramente sua.
lan e Rodney fizeram muitas perguntas interessantes e o almoo j quase
chegava ao fim, quando Kimball comentou:
- Esta noite teremos um convidado para jantar.
- Quem ? - indagou Sheelah, no mesmo instante.
- Acho que  um parente seu, Basil - replicou Kimball. - O general sir
Archibald Gower, que acabou de ser nomeado chefe de polcia deste
condado.
- Ele  primo-irmo de meu pai e teve uma carreira militar ilustre -
disse o major Gower. - Ficarei encantado em poder v-lo novamente. A
esposa dele vir junto?
O major Gower fizera a pergunta sem pensar e imediatamente cara
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sobre a sala um silncio constrangedor, desses que se estabelecemquando
algum comete uma gafe infeliz.
- No, ele vir sozinho - respondeu Kimball, calmamente e, em seguida,
todos comearam a falar ao mesmo tempo.
Dora no havia pensado nisso antes, mas agora percebia que o castelo no
recebia visitas. Como seu pai e ela viviam muito recolhidos, no
estranhou esse fato. Naquele momento, entretanto, lembrou-se de que sua
me sempre lhe falara que um nobre, na posio do conde de Heversham,
recebia continuamente visitas pessoais e oficiais locais, que pediam seus
conselhos e ajuda nos projetos do condado.
Era compreensvel que, com a esposa doente, Kimball tivesse diminudo
muito a hospitalidade que se esperava dele. Porm, o fato de lady Sheelah
estar no castelo desacompanhada fazia com que nenhuma outra senhora do
condado ousasse entrar no castelo, enquanto ela ali permanecesse. "Ele
no devia ostent-la em detrimento prprio", pensou Dora.
De repente, compreendeu que, tendo se exilado no exterior por tanto
tempo, Kimball devia ter vontade de desafiar o cdigo social e a lei que
o condenava a viver com uma mulher, de quem s ficaria livre na morte.
Dora lembrava-se de ter ouvido sua me dizer que sentia muito pelos
homens e mulheres cujas esposas e maridos eram acometidos de loucura e
para quem a lei no proporcionava a chance de reconstrurem suas vidas.
Ela se havia referido a uma jovem cujo marido, aps a queda de um cavalo,
passara a ter uma vida vegetativa. Ele ficara vivo durante anos e anos e,
embora fosse incapaz at mesmo de reconhec-la, ainda assim continuara a
ser seu esposo.
-  muito cruel - dissera sua me com voz doce. - No h nada que se
possa fazer para diminuir a infelicidade dessas pessoas?
- A uma mulher s  dado o direito de divorciar-se do marido por
infidelidade ou maus-tratos - respondera Alexander, naquela poca. - A
lei  assim, minha querida. E no se esquea de que, perante
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o Santo Sacramento, aceita-se viver com algum "na riqueza e na
pobreza, na sade e na doena, at que a morte os separe".
- Sei disso, querido. Mas a lei existe para nos ajudar a viver com
alegria e no para nos punir por algo de que no temos culpa.
- Voc  muito bondosa e eu a amo por isso. Mas, minha querida, no
adianta ficar se preocupando. Voc no pode fazer nada por sua amiga,
exceto rezar para que a morte traga ao casal o alvio merecido.
- O que no me parece possvel no momento - a sra. Colwyn tinha
replicado, tomada de uma profunda tristeza.
-  muita crueldade, muita crueldade! - Dora desejava gritar, ao pensar
em Kimball, jovem e preso pelo resto da vida a uma mulher que nunca mais
poderia deixar seus aposentos.
No suportando mais pensar no assunto, Dora virou-se e fez um comentrio
banal para Rodney, que estava sentado a seu lado.
Percebeu imediatamente que ele olhava para Sheelah com uma expresso que
ela no teria sido capaz de entender uma semana antes. Agora que seu amor
por Kimball tinha lhe despertado uma nova percepo das emoes humanas,
compreendeu que aquele jovem desejava a bela mulher.
No era amor, pelo menos no o que ela conhecia. Entretanto, os olhos
dele brilhavam de uma maneira diferente e impossvel de ser disfarada.
Desde sua chegada ao castelo, Dora sentira certa antipatia por Rodney. O
rapaz costumava mostrar-se sempre irnico e sorria de um modo zombeteiro.
Agora compreendia tudo! Ele sentia inveja de Kimball, no apenas pela
riqueza, que o jovem Conde possua, mas tambm por causa de lady Sheelah!
Dora achou que aquilo complicava ainda mais as coisas e ficou contente,
quando o almoo terminou.
- O dia est lindo e quero sair para dar um passeio - disse Sheelah,
subitamente, a Kimball.
Dora tentou no se sentir desapontada, ao v-lo concordar em levla a
passear em seu coche. Seria timo poder passear novamente com
102
ele, pensou a jovem que, no entanto, tinha que se contentar em ficar em
casa, enquanto a bela Sheelah desfrutava da companhia adorvel de
Kimball.
com certeza Sheelah diria coisas agradveis enquanto estivessem sentados
lado a lado sob o sol e, sem dvida, o tocaria daquele jeito ntimo que
fazia parte do seu jogo de seduo.
Dora concluiu que no estava com cimes, mas sim cheia de tristeza por
no poder compartilhar aqueles momentos com Kimball. Alm disso, o tempo
voava e, quando menos se desse conta, o relgio daria as doze badaladas,
e o baile terminaria para ela, que voltaria para casa.
Seu pai, entretanto, estava resolvido a inspecionar todos os quadros e
Dora o acompanhou pelo castelo, esforando-se para prestar ateno ao que
ele dizia. Ao perceber que ele estava muito cansado, tentou convenc-lo a
ir para o quarto descansar um pouco.
- A quantidade de trabalho a ser feito aqui me apavora! - disse Alexander
antes de se separarem.
- Eu sei, papai, mas o senhor no est em condies de fazer tudo
sozinho. Seria bom aconselhar o Conde a ajud-lo a encontrar uma pessoa
que venha morar aqui e restaure os quadros, um por um.
- Eu mesmo farei o trabalho - disse Alexander, depois de pensar um pouco.
- No momento, no consigo pensar em ningum a quem se possa confiar um
Van Dyck ou um Poussin.
Dora preferiu no discutir com ele.
Sabendo que estaria sozinha, Dora resolveu descer ao jardim para ver os
peixinhos. Tentou imaginar Kimball menino, colocando-os na gua e indo
certificar-se, ansiosamente, todos os dias, de que eles ainda estavam
vivos.
Foi a que pensou que Kimball precisava ter um filho, que herdasse o
castelo  desse continuidade a seu nome. Como sua me, sentiu vontade de
chorar e gritar pela infelicidade de um jovem preso a uma esposa louca.
Dora no teve oportunidade de ficar a ss com Kimball antes do jantar.
Queria contar que Sheelah descobrira sobre o passeio matinal
103
deles, mas achou que talvez fosse melhor falar sobre isso no fim da
noite.
Ficou no estdio, trabalhando no quadro de Poussin e pensando en Kimball.
Teve medo de que, pela forma agressiva como Sheelah si comportara, fosse
impossvel sarem para cavalgar na manh seguinte "Tenho que v-lo a
ss!", pensava ela. "Tenho que conseguir! "
Resolveu que, caso no conseguisse conversar com ele naquela noite
escreveria uma carta e pediria que Emily a entregasse ao criado quarto de
Kimball.
Seria indiscreto, mas talvez pudesse dizer que se tratava de uma lista
dos quadros que seu pai considerava precisarem ser restaurados. Tinha que
ser cuidadosa, pois os criados eram, em geral, muito espertos e j deviam
estar percebendo que algo se passava.
A criada de quarto de Sheelah devia ter conhecimento da irritao de sua
patroa, assim como o valete de Kimball, certamente, j reparara na
inquietao do jovem Conde.
"H muita gente envolvida", pensou Dora, lembrando-se de como tudo era
diferente em Mountsorrel, onde havia apenas ela, seu pai e Jim. Sabia,
entretanto, que, depois do que experimentara no castelo, sua casa nunca
mais seria a mesma.
Encontrara o amor, mas perdera aquela sensao de segurana que a casa
significa para toda criana, antes de crescer e descobrir que o mundo 
muito diferente e, s vezes, assustador.
- Est muito sria, senhorita - comentou Emily, enquanto a ajudava a
vestir-se.
- Queria ter um vestido novo para usar - explicou Dora, rapidamente.
- Foi isso que eu lhe disse ontem - retrucou Emily. - Estive pensando,
senhorita, no gostaria que a sra. Browning, a costureira do castelo, lhe
fizesse algumas roupas?
-  muita gentileza sua, Emily, mas seria impossvel comprar qualquer
tecido e... - Dora ia dizer que no tinha dinheiro, mas achou difcil
explicar. Nunca gastaria o dinheiro emprestado do sr. Lewenstein consigo
mesma.
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- O vendedor passa aqui todas as teras-feiras - continuou Emily. - Ele
costuma ter coisas muito bonitas e baratas.
De repente, Dora pensou que poderia pedir a Kimball que pagasse pelos
tecidos. Afinal, custariam muito pouco. Em seguida, sentiu-se
envergonhada. Como desceria ao nvel de lady Sheelah, aceitando dinheiro
para roupas? J era humilhante que ele fornecesse comida para seu pai,
como ele tinha dito que faria, e roupas eram algo completamente
diferente. Preferiria andar nua a se tornar o tipo de mulher que ele
confessara ter encontrado em todas as partes do mundo!
O que estava sentindo emanou de seu corpo com tanto vigor que Emily disse
com voz assustada:
- Desculpe se a irritei, senhorita, mas eu s queria ajud-la.
- Sim, sei disso, Emily, e fico-lhe agradecida - afirmou Dora.
A jovem desceu para o jantar, pensando que pelo menos veria Kimball e
que, se no conseguissem conversar, ficaria muito feliz apenas em v-lo e
ouvir o som de sua voz.
Kimball estava na sala de estar e, quando Dora e seu pai entraram,
notaram que no estava sozinho. Sir Archibald Gower, o chefe de polcia,
estava ao seu lado.
Depois de serem apresentados, sir Archibald exclamou:
- Agora lembrei-me, sr. Colwyn! Nos encontramos em Londres h muitos
anos! Acho que deve ter sido na inaugurao da Royal Academy.
- Isso mesmo! - respondeu Alexander. - E o senhor pediu minha opinio
sobre um dos quadros.
- E, por sinal, o senhor foi muito rude a respeito do pobre artista!
Enquanto os dois homens trocavam recordaes e riam, Kimball
colocou uma taa de champanhe nas mos de Dora. Quando suas mos se
tocaram, Dora sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha e teve a certeza
de que ele sentira o mesmo.
Lady Sheelah apareceu quando todos os outros j estavam na sala e,
novamente, teve uma entrada triunfal.
Usava um vestido branco, todo brilhante de lantejoulas, e o corpete
rebordado divinamente. Flores brancas que contrastavam com seus
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cabelos ruivos estavam presas por um grande broche de diamantque fazia
conjunto com uma bela gargantilha.
Sheelh portou-se encantadoramente com o chefe de polcia, agiu
possessivamente para com Kimball e ignorou Dora como se ela fosse
invisvel.
S quando ela e Sheelh saram da sala de jantar foi que Dora sentiu-se
mal, pensando que seria embaraoso para as duas ficarem em absoluto
silncio, at que os homens aparecessem.
Para sua completa surpresa, depois de se admirar no espelho por alguns
minutos, Sheelh dirigiu-se a ela:
- Ser que me faria um favor, srta. Colwyn? - pediu ela.
- S-sim... claro - disse a jovem.
- Percebi agora que estou sem leno na bolsa. Seria muito abuso de minha
parte que a senhorita fosse at meu quarto apanhar um? Dora olhou-a
surpresa e Sheelh explicou: - A esta hora todos os criados esto nos
fundos do castelo jantando e no quero perturbar minha criada.
- No ser incmodo nenhum. Eu pegarei o leno.
-  fcil encontrar meu quarto - disse Sheelh. - Fica ao lado dos
aposentos do Conde e sei que voces estiveram l esta manh.
Embora devesse se sentir um pouco insultada, Dora concordou em fazer o
favor, pois Sheelh no estava sendo rude.
- Onde posso encontrar seus lenos? - perguntou a jovem.
- Na gaveta do lado esquerdo da penteadeira - explicou a outra.
- Traga um que tenha rendas.
- Pode deixar - concordou Dora.
Saindo da sala, subiu as escadas e percorreu o largo corredor, onde j
estivera duas vezes, a caminho dos aposentos de Kimball.
Era um corredor muito longo, e, como tinha certeza de que os homens no
teriam pressa em deixar a sala de jantar, parou algumas vezes para
admirar os quadros que seu pai examinara naquela manh.
Finalmente, chegou  porta dos aposentos de Kimball e, sentindo uma
pontada no corao, viu que a porta ao lado era a do quarto que Sheelh
ocupava.
106
A porta estava aberta e, surpresa, viu que a criada de Sheelah estava l
dentro fechando as cortinas. A mulher virou-se um pouco assustada ao
ouvir os passos de Dora.
- Desculpe-me se assustei voc - disse Dora sorrindo. - Lady Sheelah
pensou que voc estivesse l embaixo jantando, e pediu que eu viesse
apanhar um leno.
A criada, uma mulher de meia-idade, replicou asperamente:
- Eu coloquei um leno na bolsa dela.
- Talvez ela o tenha deixado em algum lugar, ento - sugeriu Dora.
- O que no me deixaria nem um pouco admirada! - A criada foi at a
penteadeira e abriu a gaveta. Pegou um leno de linho, com rendas nas
bordas. - Aqui est, senhorita.
- Ainda bem que voc est aqui - disse Dora. - Estava com medo de
escolher um leno errado!
- Vim fechar as janelas - explicou a mulher. - Est chovendo muito forte.
- Est mesmo? - indagou a jovem, surpresa. - Eu nem havia percebido.
- Eu achava que o sol estava para nos abandonar e avisei as empregadas -
continuou a criada. - Mas elas s escutam o que querem e fecharam as
cortinas com as janelas abertas!
Achando que a criada estava gostando de reclamar de outras pessoas, Dora
encaminhou-se para a porta. Chegando l, viu um rapaz vestido de valete,
carregando um casaco que reconheceu ser de Kimball.
- Vamos! J est tudo arrumado e seu jantar vai ficar frio dizia ele, que
ao ver Dora assustou-se e acrescentou rapidamente.
- Desculpe-me, senhorita. Eu no a tinha visto!
- Vim buscar um leno para lady Sheelah - explicou Dora, sentindo que
precisava justificar sua presena naquele quarto. - Ela pensou que vocs
estivessem jantando.
- Se no fosse a chuva, estaramos mesmo, senhorita - esclareceu o rapaz.
- Elas deviam fechar as janelas antes das cortinas! - continuou
107
reclamando a criada. - No se pode confiar em nenhuma delas! Em nenhuma
delas!
-  verdade! - concordou o valete.
- Bem, boa noite - disse Dora. - S espero que no caia uma tempestade.
Como esperava, os homens ainda no tinham aparecido, ao chegar  sala.
Lady Sheelah estava sentada em seu lugar preferido no sof, com a saia
rodada cuidadosamente arrumada sobre ele. Pegou o leno da mo de Dora e
disse:
- Voc demorou muito!
- O castelo  muito grande - explicou a jovem.
-  grande demais para um homem viver sozinho! - retrucou Sheelah.
Dora percebeu que ela queria provoc-la e preferiu no responder. Antes
que a petulante mulher pudesse dizer qualquer coisa, ouviram vozes e os
homens entraram na sala. Estavam rindo de algo que tinha sido dito e
Rodney e lan estavam fumando.
Dora s tinha olhos para Kimball e pensou que, mesmo que houvesse cem
homens naquela sala, ainda assim ele seria o mais belo e elegante.
Seus olhares se cruzaram uma vez e tudo em volta pareceu desaparecer, a
no ser a necessidade que tinham um do outro e o amor que parecia vibrar
entre eles.
Rodney ficou imvel, olhando para Sheelah, e Kimball convidou sir
Archibald para sentar-se ao lado de Dora.
- O senhor precisa conversar um pouco com a srta. Colwyn disse ele. -
Tenho certeza de que ela gostar de saber como seu pai era na mocidade.
- No preciso dizer que  muito parecida com sua me, no , srta.
Colwyn? - disse o chefe de polcia, sorrindo para Dora. Lembro de t-la
admirado na academia quando conheci seu pai e achei-a muito mais bonita
do que qualquer modelo retratado em quadros.
108
- Ela ficaria muito orgulhosa se soubesse disso e fico muito lisonjeada
pelo senhor achar que me pareo com ela - respondeu Dora.
 - Voc realmente  - reafirmou o homem. - Mas deixe-me contar... De
repente a porta da sala foi aberta com um gesto brusco e todos se
voltaram para ver o que estava acontecendo. Uma mulher, que Dora
reconheceu ser uma das enfermeiras da condessa, entrou correndo na
sala.
Ela se aproximou do Conde, e, por um momento, estava to esbafoadda que
no tinha flego para falar.
- Senhor Conde! Oh, senhor Conde! - conseguiu ela dizer, afinal. -
Venha comigo, depressa! l
- O que aconteceu? - perguntou Kimball.
I  A  Condessa... Oh, senhor Conde... nem sei como lhe dizer!
 - O que  aconteceu? - indagou o rapaz, agitado.
- A senhora Condessa foi... assassinada! Ela est morta!
109

CAPITULO VII

Por um momento todos ficaram em silncio, completamente aturdidos com a
notcia e com o desespero da enfermeira.
Em seguida, sir Archibald, usando agora seu cargo de chefe de polcia
local, levantou-se e se aproximou de Kimball.
- Ns a acompanharemos, srta. Jones - disse o jovem Conde  enfermeira,
que soluava e chorava copiosamente.
Enquanto os trs saam ningum disse nada. Quando j estavam na porta,
sir Archibald parou e olhou para trs.
- Ficaria muito agradecido se todos ficassem aqui e no sassem em
hiptese alguma at eu voltar - disse ele, com o rosto contrado pela
tenso.
Em seguida saram, fechando a porta.
lan foi o primeiro a ter coragem de falar alguma coisa.
- Meu Deus! Que coisa! - comentou. - Quem poderia querer matar aquela
pobre mulher?
A resposta era to bvia que novamente se fez um pesado silncio, desta
vez bastante constrangedor.
Depois de alguns momentos, o major Gower disse:
- Acho que seria um erro ficar especulando sobre o acontecido, at termos
alguma evidncia e um esclarecimento do que realmente aconteceu. Tive a
ntida impresso de que a enfermeira estava prestes a ter uma crise
histrica!
- Estava mesmo! - concordou Rodney.
Depois desse comentrio, o rapaz sentou-se ao lado de Sheelah e comeou a
conversar com ela em voz baixa, demonstrando claramente que no queria
que ningum os ouvisse.
110
De repente Alexander se levantou.
- Acho que vou aproveitar para examinar estes quadros. Isso ajudar a
passar o tempo - disse ele. - Voc poderia me ajudar a ver o que  que
eles precisam, Dora, principalmente o Fragonard, que me parece
excepcional.
A calma com que o pai falara ajudou Dora a agir, sem que ningum
percebesse a aflio que a dominava. S conseguia pensar em Kimball, e
estava ansiosa por saber sobre o que realmente acontecera, e a espera
tornava-se mais insuportvel a cada momento.
No conseguia deixar de pensar que, se a esposa dele havia morrido,
Kimball estava livre do fardo que carregara durante tantos anos. Por
outro lado, tambm percebia que um escndalo como aquele seria
extremamente prejudicial  vida dele.
Kimball sentia-se humilhado e envergonhado por ter uma mulher demente,
mas seria ainda mais terrvel quando todos soubessem que ela fora
assassinada.
De repente, quando estava parada diante do quadro de Fragonard, as
palavras de lan voltaram-lhe a cabea e ela ficou gelada de medo.
"E se, por algum terrvel erro de julgamento, Kimball fosse acusado de
assassinar a prpria esposa? No, aquilo seria ridculo", pensou Dora.
Se a Condessa tinha sido morta enquanto as enfermeiras estavam jantando,
-Kimbajl estava na sala de jantar com os outros homens e jamais poderia
ser acusado de cometer um crime to frio e cruel contra uma mulher que
no tinha o juzo perfeito.
Entretanto, por am-lo com toda a intensidade de que se sentia capaz,
Dora estava apreensiva.
Rezava, desesperadamente, para que encontrassem uma explicao lgica
para a morte da Condessa.
Depois do que pareceu uma eternidade, Kimball voltou para a sala de
estar. Estava srio, tenso e muito plido. Dora fitou-o e ficou ainda
mais apreensiva. Todos ficaram em silncio quando ele entrou e foi at a
lareira,
111
ficando de costas para os hspedes. Estava claro que ele tinha algo
muito importante a dizer.
Sheelah, sentada ao lado de Rodney, olhava para ele. lan e o major Gower,
que estavam conversando do outro lado da sala, se aproximaram, assim como
Dora e seu pai.
Ningum ousava dizer palavra e, depois de um momento, Kimbal interrompeu
o pesado silncio:
- Receio que o que tenho a lhes dizer seja muito grave. As duas
enfermeiras tinham dado um sedativo para minha esposa e ela estava
dormindo, quando as duas desceram para o jantar. Trancaram a porta de
seus aposentos por fora e deixaram a chave na fechadura. Enquan to elas
estiveram fora, o que foi por menos de uma hora, algum entrou no quarto
de minha esposa e apunhalou seu corao...
Kimball fez uma pausa e todos o fitavam boquiabertos.
- com um estilete de artista! - concluiu Kimball.
Houve um suspiro geral e todos os olhares se voltaram para Alexander.
- Era um dos estiletes que estavam no estdio? - perguntou ele. Kimball
assentiu.
- Acho que seria muito fcil qualquer pessoa entrar l e... comeou
Alexander.
Antes que conclusse seu pensamento, Sheelah interrompeu-o com uma risada
sarcstica.
- Claro! Essa explicao resolve seu problema facilmente, no ?
- disse ela desdenhosamente. - No precisamos continuar com isso! A est
a assassina!
Sheelah apontou para Dora e seus braceletes de diamantes brilharam.
Novamente houve um atnito suspiro geral e, antes que Dora conseguisse
recuperar a voz para dizer qualquer coisa, Sheelah continuou:
- Depois do jantar, a srta. Dora Colwyn me deixou sozinha aqui na sala e
desapareceu por um longo tempo. Na verdade, ela s voltou um pouco antes
dos cavalheiros retornarem da sala de jantar.
112
- Onde estava, srta. Colwyn? - indagou Kimball, com uma voz que,
absolutamente, no parecia ser a dele.
Dora, sentindo que estava fazendo parte de algum terrvel pesadelo,
respondeu:
- Atendendo a um pedido de lady Sheelah, fui ao quarto dela buscar um
leno. Ela me disse que estava sem leno na bolsa. - A voz de Dora estava
firme, pois estava dizendo apenas a mais pura verdade.
Sheelah riu novamente.
- Que desculpa absurda! Minha criada sempre coloca um leno na minha
bolsa e  claro que eu no precisaria de outro!
Dora achou que no devia ter ouvido bem. Ficou olhando para Sheelah sem
conseguir acreditar. De repente, compreendeu o que ela estava tentando
fazer e disse, quase como se algum a estivesse forando:
- Foi exatamente isso o que sua criada disse quando me deu o leno que eu
lhe trouxe, lady Sheelah.
Dora reparou que Sheelah arregalara os olhos. Ia continuar a falar, mas
Kimball foi mais rpido:
- Quer dizer que quando foi buscar o leno no quarto de lady Sheelah a
criada estava l, srta. Colwyn? Est dizendo que foi a prpria criada que
lhe entregou o leno?
- Sim - respondeu Dora. - Ela estava fechando as janelas do quarto,
porque estava chovendo muito forte. O seu valete tinha ido fazer a mesma
coisa no seu quarto, senhor Conde. Inclusive, a criada reclamou muito,
porque as empregadas tinham cerrado as cortinas sem fechar as janelas.
Dora encontrou o olhar de Kimball e teve a sensao de que ele desejava
abra-la, para proteg-la daquela situao terrvel e assustadora.
- Bem, ficou muito fcil saber onde a senhorita estava - disse Kimball,
calmamente. - Informarei ao chefe de polcia sobre o que foi dito aqui.
No momento, ele est pedindo esclarecimentos s enfermeiras.
Sem olhar para ningum, exceto para Dora, Kimball retirou-se da
113
sala. S quando fechou a porta e ficaram novamente sozinhos foi que lan
comentou:
-  extraordinrio, Sheelah, voc ter esquecido que tinha pedido para que
a srta. Colwyn fosse buscar um leno nos seus aposentos.
Naquele momento, Dora notou que Sheelah estava completamente plida e que
o ruge vermelho em suas faces parecia muito estranho em contraste com o
branco natural de sua pele.
Antes que algum mais pudesse dizer alguma coisa, Rodney levantou-se e
forou Sheelah a fazer o mesmo.
- Vamos - disse ele.
- Para onde? - perguntou ela, com a voz embargada pelo medo.
- vou lev-la para a Frana - respondeu o rapaz.
- No... o que... quer fazer? - protestou a jovem.
- No seja estpida, Sheelah! - disse ele, quase fora de si. Se ficar
aqui, voc certamente ser presa!
Sheelah deu um grito de pavor e Rodney continuou:
- Se formos direto para Dover,  possvel que consigamos atravessar o
canal, antes que a polcia tenha tempo de emitir um mandado de priso.
Enquanto falava, Rodney a empurrava para a porta e as pessoas presentes
na sala ficaram observando-os, completamente paralisadas. Sheelah se
debateu, resistindo por alguns momentos.
- Minhas jias! - gritou ela. - Minhas jias! No posso ir embora sem
minhas jias!
- Eu lhe comprarei outras - respondeu Rodney, alterado. Est esquecendo
de que o chefe de polcia est aqui? Quando ele voltar para a sala,
sabendo que sua criada e o valete de Kimball viram a srta. Colwyn em seu
quarto, voc no ter nAis chance alguma de fugir.
Sheelah ainda murmurou alguma coisa, mas, sem resistir mais, deixou que
Rodney a conduzisse para fora da sala.
S quando j tinham ido embora  que Dora sentou-se, a ponto de ter um
desmaio.
114
Percebendo o estado em que Dora se encontrava, lan foi apressadamente at
uma mesinha que ficava num canto da sala e serviu-lhe um clice de
conhaque.
O major Gower, conseguindo sair da letargia em que se encontrava, disse,
completamente perplexo:
- Meu Deus! Quando disse que Sheelah lutaria como uma fera para no
perder Kimball, nem imaginava que ela pudesse ser capaz de praticar um
crime!
- E ainda por cima tentou implicar minha filha nisto tudo disse
Alexander, furioso. - Meu Deus, Dora, se voc no tivesse encontrado os
criados, teria sido acusada de assassinar a Condessa e seria presa!
lan entregou o clice de conhaque  jovem.
- Eu... eu estou... bem - Dora conseguiu dizer.
Entretanto, sentia a cabea girar e parecia que o cho tinha escurecido
completamente. Percebendo que ela ia cair, lan guiou sua mo com o clice
at a boca e Dora sentiu o lquido descer queimando por sua garganta.
- Acho que todos ns precisamos de um drinque! - disse o major Gower. - O
que quer beber, senhor? - perguntou ele, dirigindo-se a Alexander.
- Um conhaque, por favor! - pediu o velho.
Alexander ergueu-se da poltrona em que estava sentado e aproximou-se do
major Gower.
Dora olhou para lan e perguntou, num tom de voz que era apenas um
murmrio:
- Acha que eles conseguiro fugir?
- Espero que sim - respondeu lan. - Rodney tem cavalos muito bons e
quando o chefe de polcia compreender o que realmente aconteceu, eles j
estaro fora de sua jurisdio. Estaro na Frana, antes que a polcia
tenha tempo de emitir um mandado de priso contra lady Sheelah.
115
- Como... ela pde... fazer uma... coisa destas? - indagou a jovem,
atordoada.
- Acho que Sheelah percebeu que o interesse de nosso anfitrio estava
voltado para outra pessoa - explicou o rapaz.
Pela maneira como lan disse aquelas palavras, Dora compreendeu que ele
percebera que ela e Kimball haviam sido feitos um para o outro. No era
de se surpreender, uma vez que ela mesma notara o que Rodney sentia por
Sheelah pela expresso dos olhos dele.
De qualquer maneira, Kimball seria envolvido num escndalo e Dora queria
apoi-lo naquela situao que, sem dvida, seria dolorosa e humilhante.
"Eu o amo!", pensou ela, "eu o amo muito e s o amor poder ajud-lo
agora".
Dora fez um arranjo de flores cor-de-rosa num vaso grande e colocou-o na
sala de estar. A beleza e o perfume daquelas flores compensavam o estado
lastimvel das cortinas, do tapete e dos mveis de sua
casa
A cor viva das flores realava os semitons dos quadros pendurados nas
paredes e dava mais alegria ao ambiente.
Embora estivesse tentando de todas as maneiras possveis deixar o velho
casaro o mais apresentvel possvel, Dora sabia que nada disso seria
preciso, pois quando Kimball chegasse s teria olhos para ela.
A jovem e seu pai haviam voltado para casa duas semanas antes, mas j
parecia estarem l h sculos.
Uma felicidade maravilhosa substitura, entretanto, o desespero, quando
Kimball reafirmara seu profundo amor por Dora, embora tivessem que se
separar, temporariamente.
s vezes, Dora chegava a pensar que toda a tragdia que acontecera no
castelo e o amor que l encontrara no passavam de sonhos. Em seguida,
entretanto, agradecia a Deus que, tendo atendido s suas preces,
libertara Kimball do terrvel pesadelo que era sua vida.
116
Dora ainda achava difcil acreditar que lady Sheelah fora capaz de
cometer um assassinato ao achar que estava perdendo Kimball, pretendendo
eliminar, de um s golpe, tanto a Condessa como ela prpria.
Tinha sido um plano inteligente e, se no fosse a chuva, Dora poderia
estar agora presa, aguardando uma condenao por homicdio.
Como o quarto de Sheelah ficava mais afastado da sala do que o da
Condessa, ela tivera tempo suficiente de ir at a torre, enquanto Dora,
inocentemente, fora buscar o leno para ela.
As ferramentas de Alexander ficavam arrumadas sobre uma mesa no estdio.
Depois de pegar o estilete, Sheelah entrara, certamente, no quarto da
Condessa, adormecida pelo sedativo, e apunhalara o corao da pobre
mulher.
Em seguida, Sheelah voltara  sala de estar, sem que ningum a tivesse
visto.
Dora no s se demorara por ter conversado com a criada e com o valete do
Conde como tambm parara para admirar os quadros do corredor, no tendo a
menor vontade de ficar sozinha com Sheelah, enquanto os homens no
sassem da sala de jantar.
s vezes, Dora acordava no meio da noite e fazia uma orao de
agradecimento a Deus e tambm  sua me, por lhe terem arrumado um libi
to indiscutvel.
Achava que Sheelah tivera muita sorte por Rodney, que a queria tanto,
estar no castelo, pronto a fugir com ela.
Naquela noite fatdica, Kimball e sir Archibald, o chefe de polcia,
tinham demorado muito a voltar para a sala de estar, onde estavam os
outros hspedes.
Os dois estavam muito srios e, por am-lo demais, Dora sabia o quanto
Kimball lamentava saber que Sheelah cometera aquele crime terrvel, numa
tentativa de mant-lo a seu lado.
- Eu disse que ningum deveria sair desta sala - dissera o chefe de
polcia, asperamente, ao ver que s quatro pessoas os esperavam, em vez
de seis.
117
- O senhor tem que compreender que lady Sheelah est muito perturbada -
argumentara lan.
- Receio ter que pedir para que ela volte aqui, imediatamente
- replicara sir Archibald, olhando para Kimball em seguida. Poderia
mandar busc-la, senhor Conde?
Kimball hesitara.
- Imagino que os criados esto muito agitados. Talvez seja melhor eu
mesmo ir busc-la - dissera ele.
- Sim, se puder fazer este favor - agradecera o chefe de polcia.
- Gostaria de beber alguma coisa, senhor? - perguntara lan, fazendo o
papel de anfitrio.
- Obrigado - respondera o homem -, mas sou forado a recusar, at
concluir este caso desagradvel.
- Como quiser - respondera lan.
Fizera-se um silncio embaraoso e fora o chefe de polcia quem o
interrompera dizendo:
- Nunca imaginei que pudesse acontecer uma coisa to lastimvel nesta
casa. Fui muito amigo do pai de Kimball e gostava muito dele.
- E ns gostamos muito do filho dele - interpusera o major Gower. -
Espero, senhor, que faa o mximo possvel para manter os detalhes desta
tragdia longe da imprensa.
- Farei o que puder, mas no ser fcil - respondera o general.
- O caso daria manchete em todos os jornais.
Passaram-se quase quinze minutos, antes que Kimball voltasse para a sala,
sozinho.
- Peo desculpas por ter demorado tanto, senhor, mas no h sinal de lady
Sheelah em lugar algum - dissera ele.
- Como no? - perguntara o chefe de polcia, sem entender bem o que
estava acontecendo.
- Ela no est no quarto e posso garantir que no est em nenhum outro
lugar do castelo, pois fui procur-la em todos os cantos possveis
- explicou Kimball.
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- Mas como  possvel? -  tornara a perguntar o general. - Tem alguma
ideia de onde Rodney pode t-la levado, lan?  perguntara o Conde. - Est
chovendo muito e no acredito que eles estejam no jardim.
lan no respondera imediatamente e Dora percebera que ele estava
calculando se j tinha dado tempo suficiente para que lady Sheelah e
Rodney estivessem bem longe dali.
Dora achava que, mesmo tendo que selar os cavalos, os dois j deveriam
estar razoavelmente longe.
- Espero sinceramente que o senhor compreenda que Rodney agiu certo,
levando lady Sheelah, de quem ele tanto gosta, para longe das garras da
lei - dissera lan, calmamente.
Por um momento o chefe de polcia ficara completamente perplexo. Em
seguida, respirara fundo e dissera num tom de voz baixo e muito calmo:
- Extra-oficialmente concordo com o senhor.
Todos tinham partido na manh seguinte e Dora e seu pai haviam sido
levados embora do castelo de uma forma muito diferente da que tinham
chegado. A carruagem de viagem do conde de Heversham, levada por quatro
cavalos magnficos, levara-os para Londres. Era to espaosa e
confortvel que Alexander sequer sentira-se fatigado.
No meio do caminho, haviam parado para almoar e descobriram que o Conde
no s tinha mandado comidas deliciosas para eles como tambm enviara-
lhes um conhaque raro que revigorara Alexander para o resto da viagem.
Ao chegarem a Londres, ficaram hospedados na casa Heversham, em Grosvenor
Square. Seu pai fora para a cama imediatamente e Dora, completamente
maravilhada, ficara admirando os outros tesouros que a casa da cidade da
famlia Heversham possua. Havia vrios quadros que, certamente,
deixariam seu pai completamente extasiado.
O procurador de Kimball, que os recebera assim que haviam chegado,
informou Dora de que tudo j estava arranjado.
- O senhor Conde escreveu para mim, srta. Colwyn - dissera
119
ele. - Insistiu para que vocs passem duas noites aqui, a fim de que seu
pai tenha tempo de se recuperar completamente para enfrentar o resto da
viagem.
-  muita gentileza - agradecera Dora.
- O senhor Conde tambm pediu para que eu combinasse um horrio com o
costureiro. A senhorita concorda em que seja amanh s dez horas?
- Costureiro? - indagara a jovem, surpresa. O procurador parecera ficar
intrigado.
- Pensei que a senhorita estivesse sabendo - explicara ele. - O senhor
Conde me disse que est providenciando tudo, para que a senhorita seja
retratada com os lrios d'gua cor-de-rosa que a me dele plantou na
fonte do jardim do castelo.
Pela expresso de Dora, o procurador vira que ela se tinha lembrado
agora.  que, apesar de acreditar em tudo o que Kimball lhe dissera, Dora
nunca imaginara que aquele sonho pudesse se transformar em realidade to
depressa.
- O senhor Conde insistiu categoricamente quanto  cor do vestido que a
senhorita deve usar para posar para o retrato. Disse-me que deve ser
exatamente igual  das vestes da Virgem do quadro de Van Dyck, que se
encontra atualmente na saleta ntima dos aposentos dele, no castelo.
O procurador pegara uma pea de seda e a entregara a Dora, a fim de que
pudesse examin-la.
- Esta  a cor que o senhor Conde diz ser a correta, embora deva ser
submetida,  claro,  sua aprofao. Ele pediu, tambm, srta. Colwyn, que
seu pai indique um bom artista que possa retrat-la. Enquanto isso, ele
encomendou dois vestidos para a senhorita, um para tarde e outro para
noite.
Dora sorrira.
Apreciava a maneira como Kimball encomendara os vestidos que precisava,
sem infringir as convenes, sem deix-la embaraada e tornando tudo mais
fcil para que pudesse aceit-las, sentindo-se agradecida e lisonjeada.
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Na verdade, teria sido absolutamente impossvel recus-los, aps saber
que seria retratada com os lrios.
- s dez horas estar timo para mim - respondera Dora, afinal.
Depois de dois dias, haviam seguido para casa, na carruagem de Kimball.
Alexander no falava em outra coisa, seno nos quadros maravilhosos
existentes na manso Heversham, enquanto que Jim se atropelava nas
prprias palavras, enquanto lhe segredava a respeito das comidas e dos
vinhos que estavam levando.
- Poderemos continuar alimentando bem o patro, srta. Dora
- dissera ele, alegremente. - Alis, ns trs poderemos comer muito bem
por bastante tempo.
- Claro que sim, Jim - concordara Dora.
Tinha vontade de agradecer pessoalmente a Kimball e dizer como ele tinha
sido maravilhoso por pensar em todos os detalhes, a fim de garantir o
conforto de sua famlia. "No  possvel que exista outro homem to
maravilhoso assim", pensou Dora. "Embora esteja com muitas preocupaes
no momento. "
A jovem sabia que o amor que os unia era inviolvel, no importava o que
pudesse acontecer.
Dora sentia-se como se tudo o que estava  sua volta brilhasse com o amor
que emanava de Kimball. Tinha certeza de que tambm ela, por estar to
perdidamente apaixonada, irradiava aquela luminosidade que trazia bons
fluidos.
At a casa de Mountsorrel parecia menos arruinada do que quando tinham
partido. E, como se o destino tivesse resolvido que ela j sofrera
bastante e que agora precisava ser feliz, encontrara uma carta, que tinha
sido colocada embaixo da porta enquanto estavam ausentes.
Dora pegou-a sentindo o corao bater acelerado, pois sabia que era de
Philip. Pensou que ele estivesse dizendo que voltaria logo para casa. Ao
abrir o envelope, encontrou logo um cheque em nome de seu pai e quase no
acreditou no que via.
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Ps-se a ler a carta rapidamente:
"Minha querida Dora,
Perdoe-me se deixei de escrever nos ltimos meses que se passaram, mas eu
no tive um s minuto de que dispor.
Tudo o que almejei e lutei para conseguir de repente comeou a se
materializar, e, se nada de imprevisto acontecer, daqui a dois o trs
anos, voltarei para casa extremamente rico.
Enquanto isto, estou lhes enviando um cheque de cem libras e mandarei a
mesma quantia todos os meses at que, dentro em breve, eu possa duplicar
ou at triplicar esta quantia.
Sei, querida irm, como voc deve ter passado por dificuldades
financeiras. Recebi sua carta contando que papai no estava muito bem de
sade, mas espero que este dinheiro possa ajud-la. Prometo que, quando
voltar para casa, no esquecerei seu carinho e dedicao.
D lembranas a papai, diga que estou com saudades e que no o perdoarei
se ele no cuidar bem dos nossos quadros.
Mais uma vez, obrigado, querida Dora.
Do seu irmo que a ama,
Philip. "
Dora mal conseguia acreditar no que lera, mas agora poderiam pagar a
dvida com o sr. Lewenstein, imediatamente, e levariam uma vida muito
diferente da que haviam levado at ento.
Enquanto lia a carta, Jim levou seu pai para o quarto. Dora subiu as
escadas correndo, pois no podia deixar aquela novidade maravilhosa para
o dia seguinte.
Os dois juntos leram a carta de Philip vrias vezes, como se quisessem
matar as saudades dele atravs da letra e da emoo de saberem que aquele
papel tinha vindo das mos do filho to amado.
122
Dora tinha muito o que fazer para colocar a casa em ordem, e, enquanto
Jim trabalhava assobiando, seu pai se ocupava do quadro de Poussin que,
para sua surpresa, viera junto com eles. Dora, por sua vez, esperava
ansiosamente por notcias vindas do castelo.
Todos os dias abria os jornais, que agora podiam se dar ao luxo de
comprar, temendo encontrar alguma reportagem falando sobre o assassinato
da condessa de Heversham.
Entretanto, tudo o que lera no fora seno uma nota formal na coluna de
bitos, informando que a esposa do conde de Heversham fora enterrada no
mausolu da famlia, numa cerimnia ntima.
- O que ser que est acontecendo? Meu Deus, preciso saber o que est
acontecendo! - repetia Dora inmeras vezes por dia, tentando lembrar-se
do velho ditado que dizia: "Falta de notcias, boas notcias".
Seus vestidos novos chegaram de Londres e, ao experiment-los, Dora
reconheceu que a cor era exatamente do mesmo tom de azul que Van Dyck
escolhera para a Virgem de seu quadro.
Aquela cor realava a alvura de sua pele e, com os cabelos negros
repartidos ao meio e os olhos brilhantes de amor e esperana, a jovem se
parecia ainda mais semelhante  Virgem do quadro.
Naquele dia colocou o vestido de tarde, achando que talvez Kimball
pudesse chegar, o que era, no entanto, muito improvvel.
com o dinheiro mandado por Philip, Dora comprou vrias outras coisas de
que precisava com urgncia. Alm disso, embora considerasse uma
extravagncia, encomendara um novo traje de montaria.
Achava que estava sendo presunosa ao imaginar o que tinha medo de
admitir at para si mesma. Entretanto, um instinto mais forte do que
qualquer lgica dizia-lhe que Kimball precisava dela, to
desesperadamente quanto ela dele.
Dora recuou para admirar o vaso de flores e, de repente, achando que
tinha ouvido som de rodas parando em frente  casa, prendeu a respirao.
No conseguia se mexer; era impossvel fazer qualquer movimento.
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A porta frontal da casa tinha sido deixada aberta, para que o sol
entrasse. Os passos de algum agora soavam no vestbulo e se aproximavam
da sala de estar.
De repente, Kimball entrou.
Ele pareceu preencher a sala inteira, o cu, o Sol, o mundo todo. Assim
que pousou os olhos sobre ele, Dora notou o quanto ele parecia mais
jovem, mais feliz, enfim algum completamente diferente do homem que
deixara no castelo.
Nenhum dos dois conseguia falar. Ficaram imveis, contemplando-se,
demoradamente. No precisavam de palavras, pois o amor emanava deles,
fluindo como um rio que corria em liberdade.
Depois de um longo momento, Kimball abriu os braos e, dando um grito de
alegria que ecoou pela sala, Dora correu para ele.
O rapaz abraou-a com fora e ela sentiu o corao dele bater
descompassadamente contra seu peito.
Gentilmente, Kimball levantou o rosto de Dora e fitou-a antes de beij-
la.
- Eu amo voc! - disse ele, afinal, com voz rouca e trmula.
- Amo voc, minha querida, e, graas a Deus, no tenho mais medo de dizer
isso. Amo voc! Amo voc!
Em seguida, beijou-a novamente de maneira apaixonada, possessiva,
exigente e carinhosa. Era como se os dois tivessem sobrevivido a
terrveis problemas, sendo salvos por um milagre, talvez realizado pela
fora da paixo que os unia.
Agora s existia o amor. Um amor to maravilhoso, to perfeito e to
radiante que os deixava cegos. Simplesmente, no havia palavras que
pudessem descrev-lo.
Muito tempo depois, com a voz ainda rouca, trmula e cheia de paixo,
Kimball disse carinhosamente:
- Deixe-me olhar para voc, meu precioso amor. Deixe-me matar a saudade
que estava me consumindo. Ainda acho difcil acreditar que voc existe
mesmo, que  de verdade e que no vou precisar me
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contentar simplesmente em contemplar o quadro de Van Dyck para o resto de
minha vida.
- Eu... eu estou... usando o vestido que voc... me deu... porque
achei... que voc viria hoje.
Estavam abraados e Kimball passou a ponta do indicador direito sobre o
arqueado perfeito das sobrancelhas de Dora, percorreu depois o nariz
pequeno e reto da moa e finalmente acompanhou a curva suave dos lbios
dela.
- Estou fazendo um desenho do amor, minha pequena - disse Kimball cheio
de ternura.
- Eu... amo... voc! - murmurou a jovem.
As palavras foram quase inaudveis, mas seu tom de voz transmitiu uma
paixo to intensa que Kimball beijou-a outra vez, despertando-lhe
sensaes ao mesmo tempo maravilhosas e desconhecidas.
- Voc  minha e nada mais importa no mundo - disse Kimball, por fim. -
Sofri muito durante nossa separao e cheguei a pensar que no suportaria
esperar tanto tempo para rev-la. Fui obrigado a resolver muitos
problemas, antes de poder vir para c.
- O que... aconteceu? - indagou Dora.
Foi difcil fazer aquela pergunta, pois Dora temia que as coisas tivessem
sido piores do que imaginava.
-  isso mesmo o que quero lhe contar - replicou Kimball, acariciando
ternamente os cabelos de sua amada. - Mas, meu amor, no momento s
consigo pensar em como voc  bonita e que nada mais no mundo tem
importncia diante de nosso reencontro.
- Eu tambm sinto a mesma coisa - respondeu Dora. - Chegamos aqui h
apenas duas semanas, mas eu tinha a sensao de que fazia sculos que no
nos vamos. O que me fez viver e suportar a angstia desses dias foi a
certeza do nosso amor e de que voc viria logo que pudesse. - Dora
aninhou-se mais em seus braos. - Mesmo assim, por favor... preciso saber
de tudo o que aconteceu.
- Sim, claro, meu bem - concordou o jovem Conde.
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Kimball conduziu-a at o sof e, assim que sentaram, Dora disse:
- Voc fez uma longa viagem e precisa beber alguma coisa. Quer que eu v
buscar uma bebida?
- No, obrigado - respondeu Kimball. - Como voc pode ser to bonita, to
perfeita, to parecida com a Virgem do quadro? A Virgem que eu adorava
desde pequeno... - Tomou a mo dela e beijou-lhe os dedos carinhosamente.
- Estou tentando pensar no que devo contar-lhe, mas tudo o que quero 
continuar dizendo que a amo e que estou indizivelmente feliz por t-la
reencontrado.
- Conte - insistiu Dora. - Quem sabe assim no tenhamos mais que tocar
neste assunto?
Depois de uma breve pausa, Kimball comeou:
- Sir Archibald, o chefe de polcia, foi maravilhoso! Abriu-se um
inqurito,  claro, mas ele conseguiu fazer com que o veredicto fosse
"homicdio acidental".
-  verdade...  mesmo verdade? - indagou Dora.
- Sim. Como a polcia no conseguisse encontrar algum que pudesse
testemunhar a respeito do assassnio e tampouco qualquer pessoa que
pudesse ser indiciada como suspeito, o caso foi encerrado e arquivado.
Dora deu um profundo suspiro de alvio.
- Fiquei to preocupada com voc - disse ela.
- E eu temi que voc tivesse que responder por alguma coisa, minha
querida - comentou Kimball. - No queria que voc, nem como hspede do
castelo, fosse envolvida numa situao to embaraosa e desagradvel.
A voz de Kimball tornara-se mais grave ao dizer aquelas ltimas palavras
e Dora achou que nelas estavam contidas toda a dor, infelicidade e
sofrimento que ele enfrentara durante tantos anos.
- Agora tudo j passou e estou livre, meu amor - continuou o Conde,
ternamente. - Estou livre para pedir que voc se case comigo e me
proporcione a felicidade que tanto desejo e que nunca tive ao meu
alcance.
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-  isso o que eu... mais quero na minha vida - respondeu Dora. - Quero
ajud-lo a... esquecer o passado, at que voc pense que tudo no passou
de um pesadelo.
- Vai ser fcil tendo voc ao meu lado - disse Kimball, beijando-a
delicadamente. - Enquanto viajava para c, meu amor, vim pensando que
seria intolervel para ns dois termos que esperar o ano de luto
convencional.
Os olhos de Dora brilharam intensamente, como se tivessem capturado um
belo raio de sol.
- Quer dizer que... ser que ... possvel? - perguntou Dora, ansiosa.
- Se voc concordar, poderemos nos casar numa cerimnia simples e secreta
- explicou Kimball: - Pensei que poderamos ir morar em uma das outras
casas que possuo. Tenho uma muito bonita e bastante isolada em Devon.
Quando meu perodo de luto estiver terminado, podemos anunciar que nos
casamos l... isto , se voc concordar,  claro.
Dora tentou dizer alguma coisa para expressar a felicidade que sentia,
mas no conseguiu.
- Pensei que poderamos convidar seu pai para ir morar no castelo durante
nossa ausncia, assim ele poderia continuar trabalhando nos quadros -
continuou Kimball. - Ele seria,  claro, bem assistido. Tenho muitos
parentes que no s gostam de visitar o castelo, mas tambm de se
hospedar l.
- Como voc consegue ter ideias to maravilhosas e perfeitas?
- perguntou Dora. - Voc sabe que... o que mais quero na vida ... ficar
junto de voc.
- Acho que, por mais que eu repita, nunca conseguirei transmitir
completamente o quanto tambm desejo isto. No posso mais viver sem voc
- disse Kimball. - Como julguei que voc fosse aceitar, j estou com a
licena de casamento em mos!
Kimball abraou-a e beijou-a ternamente.
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- Quer casar-se comigo, querida? Quer casar-se com um homem que lhe
entregou completamente o corao e que vai ador-la para o resto da vida?
- S-sim... - murmurou a jovem, cheia de enlevo.
O jovem Conde beijou-a e, ao sentir Dora correspondendo plenamente quele
beijo, sentiu, mais uma vez, que eles eram uma s pessoa.
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QUEM  BARBARA CARTLAND?
As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de cem milhes
de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita
importncia aos aspectos mais superficiais do sexo, o pblico se deixou
conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais.
E ficou fascinado pela maneira como constri suas tramas, em cenrios que
vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides
das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso das
reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de
j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e
teatrloga. Mas Barbara Cartland se interessa tanto pelos valores do
passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo
de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por sua luta em defesa de
melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e 
presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.
Fim
